breve tempus

momentos na cultura antiga

quinta-feira, abril 12, 2007

Dostoiévski e Lucrécio

Neste sublime excerto de Crime e Castigo, Raskólnikov foge do seu melhor amigo, abandona as pessoas que mais ama na vida, a sua irmã e mãe. Fá-lo porque a sua consciência sente o peso insuportável do crime que cometeu.

"Raskólnikov esperava-o ao fundo do corredor.
- Sabia que vinhas atrás de mim – disse. – Volta para lá e fica com elas… E também amanhã e… sempre. Eu… talvez apareça… se for possível. Adeus!
E, sem estender-lhe a mão, foi-se embora.
- Mas para onde vais tu? O que tens? O que se passa? Será possível uma coisa dessas?... – murmurou Razumíkhin, completamente perdido.
Raskólnikov voltou a parar.
- De uma vez por todas: nunca me perguntes nada. Não tenho nada a responder-te… Não venhas ver-me. Se puder, venho eu cá… Deixa-me mas não as deixes a elas. Percebeste?
Fazia escuro no corredor, estavam ao pé do candeeiro. Durante um bom minuto olharam um para o outro em silêncio. Razumíkhin ficou com esse minuto gravado na memória para toda a vida. O olhar fixo e ardente de Raskólnikov parecia mais forte a cada instante que passava, penetrava-lhe na alma, na consciência. De súbito, Razumíkhin estremeceu. Algo estranho relampejou entre eles; qualquer coisa terrível, monstruosa e, num relâmpago, percebida pelos dois… Razumíkhin ficou lívido como um morto.
- Compreendes agora? – disse Raskólnikov com o rosto doentiamente desfigurado. – Volta, vai ter com elas – acrescentou e, dando meia volta, foi rapidamente para fora…"

Dostoiévski, Crime e Castigo, Trad. Nina e Filipe Guerra, Presença 2001.

Mas na vida há o medo do castigo por feitos criminosos,
medo tão horrível quanto o crime e a expiação para o crime:
a prisão, o horrível lançamento da pedra, correntes, executores, cela dos condenados,
buraco, ferro em brasa, fogo; e ainda que estes estejam ausentes,
ainda assim a consciência culpada, aterrorizada perante tudo o que possa acontecer,
aplica o aguilhão e flagela-se a ela própria com chicotes, e enquanto não vir
o fim para as suas misérias ou o limite para o seu castigo receia que estas aflições
possam ser mais graves depois da morte. Assim a vida dos loucos torna-se num inferno.

Lucrécio, Sobre a natureza das coisas, III, 113-123.

Etiquetas: , ,

sexta-feira, abril 06, 2007

Homero, Ilíada 1-7



Deixo-vos uma oferta pascal. Cliquem no texto e liguem as colunas...

Etiquetas: