breve tempus

momentos na cultura antiga

sexta-feira, janeiro 12, 2007

Só sei que nada sei...

Por vezes, gosto de por em causa as regras basilares em que me suporto, e penso que é um exercício saudável, pois só assim nos podemos aperceber de determinados erros que acompanham as nossas pressuposições. Hoje dei comigo a por em causa os critérios que definem se uma palavra existe ou não.

Isto deu-se quando visitava o Assim Mesmo, um Blogue sobre a língua portuguesa, com ocasionais reflexões e incursões noutras áreas, porque afinal a língua cobre toda a realidade. Com marcado sentido pedagógico, sem abdicar do necessário humor.

Aí encontrei o seguinte:

"Uma amiga, professora (eu não disse já que conheço muitos professores?) apostou comigo, imprudente, em como não existe a palavra «chapelinho», mas «chapeuzinho»."

Gostava de destacar a oração "não existe a palavra «chapelinho»". Não sentem algo de profundamente paradoxal nesta questão? Como é que pode existir ou não uma palavra que acaba de ser escrita e cujo significado é apreensível por grande parte dos falantes da língua?
Compreendo que "intransparente" seja uma palavra que não exista no léxico português, mas ainda assim, a partir do momento que eu a escrevi, ela está ali e existe, quer queiram quer não. Podem lê-la, dizê-la, decorá-la ou esquece-la, mas neste texto ela existe e está ali. O mais curioso ainda é que a maior parte de vocês sabe o que ela significa…

Isto para chegar à seguinte questão:
Quais são os critérios que "decidem" se uma palavra existe ou não?
Ela ser proferida por determinado grupo de falantes de uma língua?
Têm de ser mais de mil, ou apenas três ou quatro escritores da “praça”?
Têm de ser falantes da “língua padrão”?
Ou a palavra tem de ser atestada em textos literários?
Ou a palavra tem de estar atestada em determinados dicionários? E tudo o que não está lá, não existe?
Ou depende da palavra?
Quem souber a resposta a estas questões, diga por favor…

Exemplos de palavras que todos sabemos o que significam, mas que não existem oficialmente: “ - Deu-lhe um vaipe
“O desarrependimento é feio porque soa mal, mas ainda é pior quando uma pessoa se arrepende de se ter arrependido.”

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11 Comments:

At 3:26 da manhã, janeiro 13, 2007, Blogger LaBellaMafia disse...

Caro Manuel (espero que não me leve a mal a intimidade)
Para quando excertos do grande Herodotus, pai da história?

Cumprimentos.

 
At 9:23 da manhã, janeiro 13, 2007, Blogger Ricardo disse...

Parafraseando pouco-mais-ou-menos esse génio que é o catedrático Gilberto Madaíl, uma palavra existe "quando tem de existir"...

 
At 11:02 da manhã, janeiro 13, 2007, Blogger Manuel disse...

Caro LaBellaMafia,
Segundo consegui apurar, dispõe de traduções dos livros I, III, IV, VI e VIII das Histórias de Heródoto nas edições 70.
O primeiro volume foi traduzido por José Ribeiro Ferreira e Maria de Fátima Silva, helenistas de inegável valor. Quanto aos outros volumes, não sei se foram os mesmos tradutores, porque o sítio das edições 70 não explicita quem foi o tradutor.

Mas se encontrar um passo engraçado ou pertinente por algum motivo talvez aqui deixe um saborzinho de Heródoto.

 
At 11:04 da manhã, janeiro 13, 2007, Blogger Manuel disse...

Ricardo,

Desconhecia por completo esses surpreendentes dotes filológicos do presidente da Federação Portuguesa de Futebol...

8)

 
At 1:54 da manhã, janeiro 14, 2007, Blogger Elipse disse...

composta a partir do francês antigo "chapel" ao qual se acrescentou o prefixo "inho", a palavra é tão legítima como "panito" por "pãozinho" ou "canito" por cãozinho", estas mais no âmbito dos regionalismos, mas ambas correctas por derivarem do mesmo étimo: uma por via popular e outra por via erudita.

Para quê tanta polémica. Toda a língua é um organismo vivo!

Há critérios, sim. Mas há dinamismo linguístico...

(se eu juntar um obrigada com um abraço, posso mandar-te um obrigaço?! Por acaso não soa bem,nem segue outro critério que não seja a retribuição de palavras calmas e descontraídas em cima de um grito de desalento...e é, de facto, o que me apetece!)

 
At 9:40 da manhã, janeiro 14, 2007, Blogger Helder Guégués disse...

Caro Manuel
Se o critério fosse o seu registo num dicionário — e não é, como sempre digo —, na sua exemplificação teria escolhido mal o vocábulo «vaipe», já que o «Novo Dicionário de Calão» de Afonso Praça o inclui. Por outro lado, quando alguém se refere à «existência» de um vocábulo está a referir-se, na verdade, à sua «propriedade» ou «correcção», e então a abordagem já não poderá ser tão simplista.
Cumprimentos,
Helder Guégués

 
At 1:13 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger Manuel disse...

elipse:

Recebo o teu obrigaço, retribuindo com um beijaço, pode ser?

Hélder:

Obrigado pela precisão do seu comentário.
Mas ao afirmar:
"Por outro lado, quando alguém se refere à «existência» de um vocábulo está a referir-se, na verdade, à sua «propriedade» ou «correcção»".
Não estará a contemplar apenas o ponto de vista da gramática prescritiva e a desprezar ou outros "tipos" de gramática?

 
At 4:09 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger Miguel G Reis disse...

Ola Manuel

Excelente, excelente postal. Não tenho as respostas, mas partilho das perguntas. Também eu gostaria de saber as respostas...

Abraço
Miguel

 
At 4:12 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger Miguel G Reis disse...

E porra!, esqueci-me do mais importante!
;)

«Por vezes, gosto de por em causa as regras basilares em que me suporto, e penso que é um exercício saudável, pois só assim nos podemos aperceber de determinados erros que acompanham as nossas pressuposições.»

Esta atitude é fundamental, pois questionar as nossas suposições é buscar a novidade, uma mudança de paradigma, e isso é fundamental no pensar.

Um grande abraço

 
At 2:47 da manhã, janeiro 17, 2007, Blogger LaBellaMafia disse...

Vou investigar e trazer a esta helénica "mesa" algo de inspirador...

Ah! e correcção, não é caro mas cara.

Cumprimentos

 
At 11:09 da manhã, janeiro 17, 2007, Blogger Manuel disse...

Mil desculpas, minha cara labellamafia.

 

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