breve tempus

momentos na cultura antiga

sábado, janeiro 13, 2007

Para que serve...

O Ricardo, no seu Livro de Estilo, levantou uma questão que me parece muito importante:
Para que serve um Mestrado em Literatura Latina?

Esta pergunta também me é feita várias vezes, apenas com um ligeiro twist at he end, ou seja, trocando “Latina” por “Grega”.
Parece-me óbvio que a questão subjacente a estas perguntas é:
Para que serve estudar línguas clássicas?

A resposta o Ricardo já a deu e bem. Posso apenas acrescentar que se ninguém em Portugal continuar a estudar as línguas clássicas, daqui por umas décadas já não haverá qualquer tradução directa do grego ou latim. Desse modo, terão de ler Platão, Aristóteles, Safo, Homero, Vergílio, Cícero, Séneca e tudo o mais a partir de traduções francesas ou inglesas.

Mas o problema não me parece ser a resposta. A verdadeira questão está na necessidade da pergunta. Porque se faz tal pergunta?
Porque é que tudo tem de ter uma utilidade imediata?
Porque é que tudo tem de servir para alguma coisa?

O carácter utilitário da nossa sociedade tende a consumir tudo o resto. Tudo existe apenas para dar lucro monetário. Ora reparem na seguinte frase:“Se não dá dinheiro, não serve para nada e o melhor é acabar com isso depressa, para não gastarmos mais dinheiro com isso.”Não é uma frase estranha aos nossos ouvidos, pelo simples facto de já a aceitarmos sem nos apercebermos das implicações devastadoras que ela traz. A relevância monetária tem tendência a devorar obstinadamente tudo o resto e a própria arte ou cultura só sobrevivem se se juntarem à implacável lógica do mercado. Pois a esta lógica só tenho uma resposta a dar:
Não contem comigo!

E depois da literatura clássica desaparecer vai a toda a outra literatura, por mais viva que seja a língua, e só os “Harry Potters” sobreviverão ao brutal ataque da lógica do lucro. O problema é que os "Harry Potters" são na realidade versões simplistas ou infantilizadas da grande literatura mundial e se esta última acabar já não há fontes para se fazerem mais "Harry Potters".
Atenção que não tenho nada contra os livros da escritora britânica, apenas servem aqui de exemplo, dado o seu esmagador sucesso na lógica de mercado. Antes pelo contrário é primordial que essa literatura mais "leve" exista para atrair para a leitura, e logo para a literatura, grandes massas em todo o mundo.
Mas o que será de Dostoyevsky ou de Proust daqui por uns tempos se não se fizer nada no sentido de alterar a seguinte lógica: "tudo tem de ser simples e útil, não é útil logo não vale dinheiro, não vale dinheiro logo não se faz, não se faz logo não existe".

Etiquetas: ,

10 Comments:

At 2:15 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger Elipse disse...

se o país (e a Europa toda) continuar a apostar na formação tecnocrática, sim, vai perder-se o legado clássico e com ele todo o olhar crítico que não interessa a ninguém desenvolver nos nossos dias, a bem do "rebanho"... que os pastores "iluminados" conduzem.

 
At 4:22 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger Miguel G Reis disse...

E vai mais uma! Excelente Manuel!
Assino por baixo!

Abraço

 
At 5:11 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger cbs disse...

Caro Manuel
lamento não poder assinar por baixo
e creia que também não me agrada muito aceitar as regras do jogo.
Mas são essas as regras da vida como da economia, sem haver um superávit, mais ganhos que gastos, tudo se vai... até nós, se não tivermos uma camada de gordura em reserva, ao primeiro ataque da doença, esvaí-mo-nos...

E sendo dinheiro público, não consigo aceitar que existam cursos com meia duzia de alunos, não por não darem lucro, mas porque há outras necessidades mais premenste na saude e no ensino.
repare que o ensino superiro não é um caso de "não dar dinheiro" como diz, mas de enorme déficit.
e admitindo que o estado deve superar as necessidades básicas de quem não pode, não me parece que o estudo das culturas clássicas estejam na primeira linha.

No entanto existem sempre soluções, fundações e particulares que o farão, veja-se o exemplo (muito a contragosto, sei) dos USA.
A lógica do mecenato já não e´essencialmente económica, mas foi preciso antes alguém criar o superavit, e não parece que seja com mais impostos, de que todos depois nos queixamos.

Creia que também lamento o facto dos recusros materiais serem escassos (daí a necessidade da economia) mas penso que só depois de ganhar para alem do necessário é que se pode pensar no resto, que o diga a NASA, que se vê à rasca para obter fundos.

um abraço

 
At 6:36 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger Manuel disse...

Caro cbs,

"lamento não poder assinar por baixo e creia que também não me agrada muito aceitar as regras do jogo."

Ainda bem que ambos percebemos as regras do jogo, a diferença é que você as aceita com pesar, eu recuso-as com um sorriso de desafio.

Apesar de ter um emprego e viver na sociedade sem andar aos gritos no Metro ou coisa parecida, não quer dizer que tenha de comer tudo o que me dão à boca, nem de ser conduzido pelos pastores que a Elipse refere.

Percebo os seus argumentos, mas não os aceito.
A sua argumentação dos "dinheiro públicos" começa por querer afastar-se do lucro, mas termina referindo o deficit. Lucro ou deficit, faz tudo parte da visão meramente economicista que tende a insistir na formação tecnocrática que a Elipse refere em cima.

Não tenho nada contra os EUA, e neste aspecto até estão muito bem. Pois é um país onde o Latim e o Grego têm ainda algum peso no ensino secundário, tanto no estatal como no privado.

Quanto ao seu argumento:
"mas penso que só depois de ganhar para alem do necessário é que se pode pensar no resto"

É um facto irrefutável, mas repare no seguinte:
Se os Portugueses têm dinheiro para terem mais de um telemóvel por pessoa, mais de um carro por casal, mais de uma casa por família, como é que não sobram uns míseros milhares de Euros para um curso de Clássicas?

Se estivéssemos num país onde se luta para alimentar a população ou para lhe dar condições de vida você teria razão. Mas felizmente não estamos.

Não peço a ninguém para prescindir das mais valias que referi em cima. Não é preciso tanto...

Outro abraço também para si, e volte sempre. 8)

 
At 8:33 da tarde, janeiro 14, 2007, Blogger cbs disse...

"Se os Portugueses têm dinheiro para terem mais de um telemóvel por pessoa, mais de um carro por casal, mais de uma casa por família, como é que não sobram uns míseros milhares de Euros para um curso de Clássicas?"

Acho perfeitamente aceitável esse argumento, realmente estamos longe de ser miseráveis (apesar de endividados).
Só que me parece, serem os próprios cidadãos que, no seu egoísmo natural, não estão dispostos a abdicar de bens excedentários.
E ainda assim concordaria, mas então que paguem os impostos.
É sabido que se todos pagassem o que devem ao estado (o que tem estado a melhorar a 20 ou 30% ao ano, diga-se) a fiscalidade poderia ser reduzida e talvez, talvez houvesse mais diponibilidade no orçamento.

Há mais discussões, como por exemplo, a redução do deficit por causa de Bruxelas, comprar ou não material bélico, e por aí fora, mas no fundo será sempre uma questão de saldo entre receitas e despesas, ou seja de economia, e uma vez resolvida a escassez, será em seguida de distribuição dos recursos.

 
At 10:24 da manhã, janeiro 15, 2007, Blogger Ricardo disse...

Como deves compreender, não posso estar mais de acordo com o que escreveste!

 
At 11:05 da manhã, janeiro 15, 2007, Blogger Manuel disse...

cbs,

"É sabido que se todos pagassem o que devem ao estado (o que tem estado a melhorar a 20 ou 30% ao ano, diga-se) a fiscalidade poderia ser reduzida e talvez, talvez houvesse mais disponibilidade no orçamento."

Neste ponto coincidimos perfeitamente, se todos cumprirem (não apenas aqueles que estão obrigados para manterem o seu contrato de trabalho, como os funcionários públicos e algumas poucas empresas mais "vigiadas") os seus pagamentos fiscais. há com certeza dinheiro para isto e outras coisas também importantes na área do ensino e saúde. As duas áreas que tal como tu considero fundamentais.

Força.

 
At 2:26 da tarde, janeiro 15, 2007, Blogger catellius disse...

Cheguei agora de viagem
Desculpem-me a ausência nos "comments", he he
Feliz 2007 a todos (agora o desejo é que o resto de 2007 seja melhor do que estas primeiras duas semanas...)
Abs

 
At 6:58 da tarde, janeiro 15, 2007, Anonymous Alcebíades José disse...

Amigo Manel,
Concordo e desconcordo.
É verdade que infelizmente nos dias que correm a utilidade é a mais importante característica de qualquer pessoa ou qualquer coisa e isso é de facto deprimente, pois esquecemos-mos que as coisas que mais gostamos não servem na maioria das vezes para nada, o que é absolutamente falso porque tudo serve para alguma coisa.
Contudo sou obrigado a descordar na base economicista do discurso.
O problema não é financeiro ou somente financeiro se quisermos. O problema, é esta estúpida modernidade que nos diz que o mais belo espaço é a sala de operações, pois está tudo higienicamente no sítio.
O séc. XX foi todo ele orientado e massacrado por isto que se convencionou chamar de funcionalismo e até na arte, espaço máximo da liberdade, a forma teve que seguir a estúpida função, como se em si, a forma já não tivesse uma função.
Enfim, desculpem se me alonguei mas são inquietações que também me perturbam.

 
At 8:36 da tarde, janeiro 15, 2007, Blogger Manuel disse...

Catelius,
Feliz 2007 para ti também e volta sempre!
As duas primeiras semanas foram assim tão más como isso?

Alcebíades,
Concordo totalmente sobre o carácter depressivo da visão funcionalista do mundo.
O problema da visão funcionalista que referes é uma contribuição importante para a discussão. Mas quanto ao problema financeiro, bem gostaria de acreditar que não é ele que está no centro da questão e é antes um problema estético-ético como tu afirmas.
Seria muito mais fácil de resolver a questão se assim fosse. Mas por baixo da estética onde está "tudo higienicamente no sítio" parece-me que está uma questão financeira, porque é esta que causa a sobrevalorização da "função".
Vejamos as coisas deste modo: O que é a "função"?
A função é antes de tudo o "desempenho de um ofício exercício, trabalho, papel, cargo, profissão, tarefa".
Ora todas estas actividades estão estritamente ligadas a um valor monetário. E se o valor da "função" se sobrepõe a tudo o resto estamos outra vez a falar apenas de números, relegando tudo o mais para um plano secundário. O que me parece um erro óbvio. Pois antes dos números estão as pessoas.

 

Enviar um comentário

<< Home