Justiça ou Democracia?
Não vi programa que a Xântipa refere neste texto, mas, de facto, não tenho dúvidas que foi pela sua capacidade manipuladora e provocadora de palmas e assobios que a apresentadora foi escolhida para esse programa. A questão da criança é sensível e confesso que não tenho dados suficientes para emitir uma opinião.
No entanto, quanto a Sócrates, considerei o seguinte:
"Sócrates acreditava no sistema, foi julgado pelo sistema e aceitou a decisão do sistema.”
Com todo o democrático respeito, não posso estar mais em desacordo com a insigne classicista Xântipa, e, pelos vistos, também com o excelso Miguel.
Não me parece de modo nenhum que Sócrates (conforme Platão) acreditasse no sistema democrático. Todavia aqui o problema talvez esteja no "filtro" platónico que nos dá uma só imagem de Sócrates. Recordemos que a imagem, como Platão bem sabe, é apenas uma pálida sombra da verdade.
Voltando à questão, parece-me que Sócrates morre às mãos da justiça porque quer demonstrar a sua superioridade moral perante a própria justiça ateniense e não por a respeitar de um ponto de vista meramente "devocional". Parece-me que Sócrates acredita profundamente na justiça mas pouco na democracia. Por isso se submete à justiça, mas num acto verdadeiramente desafiador do sistema democrático que o condenou à morte. Nem sempre aceitar é concordar, neste caso aceitar parece-me ser desafiar. O Mahatma e Cristo deram frutosos exemplos da desafiadora "aceitação socrática".
No entanto, a questão é extremamente interessante e dá pano para mangas. Com certeza já alguém escreveu uma tese sobre o assunto e provavelmente com uma perspectiva diferente da minha ou da visão da Xântipa.
A ideia que me fica depois de ler o Fédon ou outros diálogos platónicos, é que Sócrates quer mudar, e muito, o sistema e, por isso, coloca-o em rotura a todo o momento. O filósofo ateniense fá-lo, colocando em dúvida os vários intervenientes do sistema ateniense do séc. V: desde o rapsôdo, (Íon), ao político (Alcibíades), ao sofista (Protágoras) e ao filósofo (Parménides). O mais flagrante ataque ao sistema como um todo é feito na República, onde o título grego – Politeia – desmente a tradução ligeiramente falaciosa que a tradição lhe atribuiu. Politeia quer dizer “política civil”, “constituição do estado” ou ainda “forma de governo” e de modo nenhum se restringe à república.
Na Politeia, Sócrates desconstrói a base da democracia ateniense – a paideia (educação) helénica. Na verdade, a pólis ideal de Platão é muito pouco democrática.
Levantam-se assim as seguintes questões:
Quem realmente está a falar?
Platão ou Sócrates?
Acreditaria Sócrates assim tanto na democracia?
Se acreditava, porque é que Platão o elege como porta-voz da sua ideologia sócio-política profundamente anti-democrática?
Questões que deixo ao vosso desejado comentário…
Etiquetas: Dialécticas, Grécia

8 Comments:
Amigo Manel
Mais orgulhoso me sinto depois de ler este post por te poder chamar amigo.
Assim como eu, foste até agora a unica pessoa a quem ouvi dizer " A questão da criança é sensível e confesso que não tenho dados suficientes para emitir uma opinião".
É que de repente parece que todos sabem tudo sobre tudo e até têm direito a aplaudir e crixificar, pessoas que nunca viram ou ouviram.
Enfim, é assim este pais.
Ola Manuel
Desculpa o atraso na resposta, mas o tempo ultimamente não tem sido muito.
Excelente postal, como sempre!
Quanto às opiniões, tua, minha e da Xantipa, a verdade é que concordo com ambas, com a tua e a da Xantipa. Isto porque não as acho incompatíveis, antes complementares.
Porque para mim há dois Sócrates em Platão: o da Republica e o das restantes obras. O da Republica (que me parece ser apenas Platão a fazer uso dos ensinamentos do Sócrates para justificar a sua propaganda política) parece-me circunscrito a um papel de defensor da oligarquia/aristocracia do filósofo iluminado, o que me parece uma visão falsa e reductora do Sócrates, dado aquilo que nos é permitido apreciar nas restantes obras. O segundo caracteriza-se pela critica construtiva aos fundamentos da polis e dos seus constituintes, os cidadãos, com vista ao aperfeiçoamento desta. Deste ponto de vista, há por parte do Sócrates uma aceitação do sistema e das suas condicionantes, e o seu percurso baseia-se na tentativa de melhorar o sistema, incluindo-se e aceitando de forma plena o seu papel nele. Por outro lado, isso não o coíbe seja de que forma for de fazer uso da liberdade que esse sistema lhe dá, nomeadamente liberdade de pensamento que lhe permite elaborar a critica ao próprio sistema, e critica ao ponto de desafiar esse mesmo sistema, de o confrontar de forma frontal nos seus ensinamentos, teorias e actos. E o tomar da cicuta é a tentativa de demonstrar em acto as falhas da polis (e, nisto, aparece a meus olhos como um percursor dos estóicos, onde tanto ou mais que as palavras e os sistemas racionais valem as acções; lembro-me dos diálogos do Diógenes com o Alexandre que a Xantipa tem lá no blog), e dessa forma expor aos olhos de todos falhas que o comum cidadão da polis aceita sem grandes questiúnculas. Ao tomar esta atitude, Sócrates foi tão desafiador como o foram Mahatma ou Cristo, como dizes. Mas tal não requer que ele se exclua do sistema, pelo contrário requer que ele se veja a si mesmo como parte integrante do próprio. Ou a sua atitude seria em vão ou meramente sem sentido para o próprio Sócrates.
Um grande abraço!
Manuel, desculpa o tamanho do comentário! Acho que exagerei um pouquinho! lol
Mas há mais!!! (grande lol)
Era para escreve-lo, mas esqueci-me. Eu sempre tive imensa dificuldade em conseguir ler a Republica, ao contrario dos outros textos do Platão. E hoje percebo (se calhar mal!lol) porquê. É que aquilo cheira-me sempre ao equivalente ao manifesto comunista mas de direita, isto é, a um manual de como ser de direita (extrema).
Que te parece?
Grande abraço
Olá Miguel.
Não tens de pedir desculpa pelo comentário, só posso ficar contente por obter tão grande feedback.
Quanto à questão dos Sócrates. Realmente, é difícil perceber quem é quem nos diálogos platónicos. Já muito se escreveu sobre o assunto, muito se irá escrever, mas como é óbvio nunca se poderá afirmar que alguém está totalmente certo ou errado sobre o tema. A não ser que o próprio Sócrates saia da sua "gruta numa encosta perto de Jerusálem" para nos contar...
Ainda assim, é importante termos as nossas ideias e tentarmos estruturá-las o melhor possível. Como tu acabaste de fazer. Continuo bastante séptico relativamente a essa paixão de Sócrates pela democracia, mas tenho de pesquisar mais umas coisas para acrescentar mais uma ideia ou outra.
Sócrates percursos dos estóicos - sem dúvida nenhuma! Séneca afirmava que só tinha havido um verdadeiro sapiens, o nosso amigo Sócrates claro.
Tive de ler a República recentemente para um trabalho que tenho de fazer. E é uma obra onde se lê coisas tão díspares como:
389b "se a alguém compete mentir, é aos chefes da cidade"
519e "...à lei não importa que uma classe qualquer da cidade passe excepcionalmente bem, mas procura que isso aconteça à totalidade dos cidadãos..."
392b "...diríamos que os poetas e prosadores proferem os maiores dislates acerca dos homens: que muitas pessoas injustas são felizes, e desgraçadas as justas, e que é vantajoso cometer injustiças, se não forem descobertas, que a justiça é um bem nos outros, mas nociva para o próprio. Tais opiniões, dir-lhes-íamos que se abstivessem delas, prescrever-lhes-íamos que cantassem e narrassem o contrário."
Apesar de tanto a República como o Manifesto de Marx e Engels veicularem e proporem ideologias políticas. Enquanto um é um tratado filosófico o outro é um panfleto para cumprir a missão de espalhar a palavra. E parece-me que Marx e Engels são um pouco mais coerentes que Platão... Mas enfim...
Abraço.
Ola Manuel
Ainda bem que não te importas que inunde a tua caixa de comentários! lol
Agora a sério, sobre o Sócrates. Tens total razão na tua atitude de busca, nada mais há de facto a fazer senão tentar perceber o que está na base dos textos. Sempre! O que escrevi nos comentários anteriores são apenas a minha opinião pessoal, baseada na minha leitura incompleta e de leigo (isto é, alguém que não é helenista nem nada que se pareça), ainda que muito interessada...
E a República parece uma obra desenquadrada da restante obra de Platão, onde a clareza das palavras e da acção dos diálogos, a beleza de composição, etc. encantam e levam o leitor pela mão. Ora, a República nunca me pareceu nada disto, como o ilustram os exemplos que dás.
Sobre Marx & Engels, o manifesto comunista e a República, assino por baixo. ;)
Já agora, que aconteceu ao Verdete, o teu outro blog? Andei por lá ontem e vi...verde. E nada mais. (lol) Pensei que ias fazer algo daquilo, daí a curiosidade.
Grande abraço
que "achado": eu com algum constrangimento em reconhecer a dificuldade que sempre tive em ler a República! Quem sabe, agora, com este auxílio... (auxilium???... ai as palavras!, comentar aqui exige que se acautele o uso de certos conceitos)
E depois a ideia de que toda a gente hoje em dia é coagido a emitir opinião como se fosse um sábio... embora as opiniões sejam feitas ao domingo à noite pelos "fazedores"... enfim, não menciono nomes senão as buscas do google vêm todas parar aqui! Lol!!!
"a criança"... e os psicólogos...e os media a lamberem o sangue, quais vampiros do alheio que é elevado à categoria de coisa pública. (dei a volta e cheguei à res publica...)
Não consigo entrar nas vossas discussões específicas; venho da História e ando ali pela cronística manuelina. Mas é um prazer e um estímulo passar por aqui.
Também é um prazer receber-te aqui cara Elipse.
"E depois a ideia de que toda a gente hoje em dia é coagido a emitir opinião como se fosse um sábio... embora as opiniões sejam feitas ao domingo à noite pelos "fazedores"... enfim, não menciono nomes senão as buscas do google vêm todas parar aqui! Lol!!!"
Realmente é curioso como as pessoas se limitam a repetir o que ouviram dos ditos "fazedores" como se estivessem a elaborar um raciocínio novo. Domingo ouvem as directrizes e segunda repetem-nas...
Isto é exagerar um pouco, mas a verdade não está muito longe disto, enfim...
Miguel,
O Verdete serve apenas para comparação com a template original deste blogue. Com tanto verde o melhor mesmo é deixar aquilo assim... 8)
Enviar um comentário
<< Home