breve tempus

momentos na cultura antiga

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Etimologia para descontrair V - Escrever ou tecer um texto? A branco ou a preto?

Que relação haverá entre «tecido» e «texto»?
Uma relação estreitíssima aproxima estas duas palavras. A primeira é a sua relação etimológica, já que «texto» vem do particípio passado do verbo latino texere (tecer), ou seja “coisa tecida” ou “maneira de tecer”. E que mais é um texto, que esse tecido entrecruzado de palavras que formam um todo?
Realmente a etimologia ajuda-nos muitas vezes a percebermos o sentido real das palavras. Assim, começarei a afirmar que determinado “texto está cheio de nódoas” ou que outro “texto resplende de novidade”. O sentido é perceptível e a etimologia agradece, sorridente.
Normalmente, as palavras seguem um percurso linear do concreto para o abstracto, facto que está bem patente na relação entre «texto» e «tecido». Mas nem sempre é assim, pois, na evolução da linguagem, há muito poucas regras fixas e imutáveis, se é que as há… Há sim algumas tendências mais generalizadas e outras mais raras e curiosas. Passar do concreto para o abstracto é uma evolução que nos parece natural, contudo há outras mudanças que não são assim tão lineares como poderíamos esperar.
Descobri recentemente que a raiz do proto-indo-europeu *bhel é a antiquíssima origem de black (inglês – preto) e белый (russo – branco). Impressionante não é? Neste caso o fenómeno linguístico é a derivação. A forma inglesa black provém do germânico *blakaz, um particípio de um verbo que significa «inflamar, queimar, arder». Parece-me que faz muito sentido que uma coisa depois de ardida (daí o particípio passado) fique «preta». O «branco» do russo белый (ainda não faço ideia como se pronuncia) está obviamente ligado ao brilho da chama.
Demonstra-se assim a imensa criatividade presente no génio humano e facilmente demonstrável na história da língua.
Por esta e outras razões, parece-me ridículo e quase risível lutar-se por determinada nomenclatura, seja ela branca ou negra, concreta ou abstracta, pois tudo isso é mutável e inconstante. O poder avassalador do tempo acabará irremediavelmente por erradicar todos os vestígios de resistência.

Etiquetas: ,

11 Comments:

At 8:06 da tarde, janeiro 17, 2007, Blogger jjb998 disse...

hey, I just got a free $5000.00 Gift Card. you can redeem yours at Abercrombie Fitch All you have to do to get yours is Click Here to get a $5000 free gift card for your backtoschool wardrobe

 
At 12:39 da manhã, janeiro 18, 2007, Blogger Elipse disse...

Repito-me certamente: a língua vive. Só nós, seres humanos em pregão de dogmas que dizemos não o serem, é que oferecemos resistência, muitas vezes nem sabendo bem porquê.

Gosto de vir aqui aprender.

Oh, como eu costumava deliciar-me em cada palavra, explicando origens e derivações aos alunos, sempre que aparecia um termo novo, ou simplesmente quando eles queriam saber...

 
At 8:24 da tarde, janeiro 18, 2007, Blogger Catellius disse...

Grande Manuel
acho que branco em russo é белo, e se pronuncia "Belo". Por isso que Belarus era chamado de Rússia Branca, e Belgrado significa Cidade Branca (grado é cidade, vide Leningrado, etc.)
Um grande abraço!

 
At 2:16 da manhã, janeiro 20, 2007, Blogger Catellius disse...

Grande Manuel,
Estou com um novo post, intitulado

GALVÃO E A TRANSUBSTANCIAÇÃO

Começa assim:

"Bento XVI virá ao Brasil em maio deste ano. Não será o primeiro "nacional socialista" a ser bem acolhido no Brasil; Josef Mengele, Franz Stangl, Gustav Wagner e Herbert Cukurs são algumas das celebridades arianas cristãs que refizeram tranqüilamente suas vidas em São Paulo. Sua Santidade deverá aproveitar a missa, planejada para um milhão de pessoas, para anunciar a canonização do primeiro santo 100% brasileiro - o que é de pasmar, já que milagreiros costumam brotar mais facilmente em áreas de esgoto a céu aberto, insalubres, desassistidas por..."

Gostaria que você comentasse!

Um grande abraço!
Catellius

 
At 8:02 da tarde, janeiro 20, 2007, Blogger Manuel disse...

Elipse,

Hás-de voltar a reflectir com os teus alunos sobre derivações e etimologias. Talvez não agora, mas vai acontecer. 8)

Catellius,
Obrigado pela contribuição!

 
At 7:16 da tarde, janeiro 21, 2007, Blogger Sofocleto disse...

Caro Manuel, fiquei sem saber se está a criticar os que inventaram e tentam implementar o TLEBS, ou se está a criticar os que são contra a implementação do TLEBS.

A palavra blakaz evoluiu diferentemente em regiões diferentes por métodos naturais. O TLEBS é, em minha opinião, uma complicação desnecessária de uma língua.

 
At 9:35 da tarde, janeiro 21, 2007, Blogger Manuel disse...

Caro Sofocleto,

A terminologia linguística actual está desactualizada. Isto é um facto. Data de 1967 e, desde então, muito avançou o estudo da linguística. Esta é a razão fundamental que me leva a aceitar uma nova terminologia linguística.
Segundo li até agora, a TLEBS tem problemas; o que mais se apregoa é a sua excessiva complexidade. De acordo, então resolvam-se esses problemas e continue-se a melhorar a terminologia linguística.
Se nos parece que está tudo bem como está é porque não temos conhecimento dos avanços que foram acontecendo nas últimas décadas e, por isso, a nossa opinião tem o mesmo valor que teria a de um astrónomo que falasse sobre o gelo em Marte antes de terem feito as últimas missões ao planeta vermelho. Ou seja, falar sem conhecimento pouco ou de nada vale.
Mas por outro lado, entendo que as pessoas pensem que a língua não é como a astronomia, e consideram a língua um valor “nacional” ou “cultural”. Ao contrário da astronomia que ninguém nega ser uma ciência, que está em constante evolução e por isso exige uma constante renovação da terminologia usada para possibilitar essa evolução. Neste ponto discordo com quem considera uma língua apenas do ponto de vista “cultural”. Parece-me que já possuímos conhecimentos suficientes para avançarmos para um outro estágio do entendimento das línguas.
Desse modo, sendo a língua o objecto de um estudo científico ela exige uma terminologia científica criada pelos especialistas dessa área. Ou alguém se julga capaz de opinar sobre a terminologia da física quântica? Parece-me que não. Então porque se acham capazes para opinar sobre a terminologia linguística?
A TLEBS é um passo nesse sentido de renovar e actualizar. Tem erros, eu sei, mas corrijam-se os erros e passe-se à frente.

Espero que tenha sido claro o suficiente.
Abraço.

 
At 9:39 da tarde, janeiro 21, 2007, Blogger Manuel disse...

Só mais uma coisa,

"A palavra blakaz evoluiu diferentemente em regiões diferentes por métodos naturais."

Esses "métodos naturais" têm todos um nome científico. Eu apenas queria chamar a atenção da volatilidade da língua. Da sua imensa capacidade de se alterar, apesar de todos os esforços que façamos para a manter numa determinada forma estanque.

Até depois

 
At 9:59 da manhã, maio 03, 2010, Anonymous Fernando Pinto disse...

Se o último comentário é de 2007, este meu não deve já vir a ser lido! Contudo, escrevo-o: obrigado pelo "texto", que faz todo o sentido. GOsto bastante de entender os étimos das palavras, embora a minha profissão nada tenha a ver com isso directamente: sou arquitecto. Sobre o "bhel", volto a agradecer e a questionar: já li que black e branco (ou blanco, em alguns idiomas, têm a mesma raiz. E, quanto a mim, faz sentido. A sonoridade é semelhante e, de qualquer forma, blanc é ausência de cor... oque não será própriamente "branco", que é a soma de todas as cores, mas sim black. Estou errado?

 
At 10:31 da tarde, julho 03, 2011, Blogger d.b disse...

uou!!! falou e disse.

quanto a manuel, tenho motivos pra achar seus argumentos erraticos e tendenciosos.

vejamos: as estrelas estão aí e as linguas estão aí. as estrelas estão aí porque estão e as linguas estão aí porque temos de nos comunicar. o homem, pra dominar melhor o mundo, inventou a astronomia e a linguistica, que nos ajuda a entender esses fenomenos.

vivos e mutantes.

um, fisico, alheio a nossa vontade.
o segundo é nossa propria vontade.

mas ambas as ciencias vem depois do objeto, e não o contrario, por isso a lingua deve sim ser encarada do ponto de vista cultural. ou a pessoa precisa ter um diploma pra falar?

 
At 7:55 da tarde, maio 04, 2013, Blogger Sara disse...

A verdade é que, onde quer que se pode ter para pensar sobre esse tipo de coisa só agora eu não posso começar a pensar muito sobre isso, porque eu estou trabalhando muitas horas por dia em Delivery Itaim

 

Enviar um comentário

<< Home