breve tempus

momentos na cultura antiga

quarta-feira, novembro 29, 2006

Uma curiosa viagem marítima no século V


Com este texto espero mostrar-vos mais uma peça importante para o nosso entendimento da vida no quotidiano na antiguidade. Fica aqui um relato curioso de Sinésio, um aristocrata grego que realizou esta viagem em 404 da nossa era, desde Alexandria até Cirene, ao longo da costa egípcia e líbia. O texto é especialmente curioso porque nos oferece um relato vivo e espirituoso das experiências do autor durante a viagem, feita num dos muitos barcos que transitavam pelo mediterrâneo.


"O nosso armador estava a ser esmagado até à morte por uma dívida pesada. A tripulação era composta por doze homens, com o capitão perfazia treze. Mais de metade eram judeus, incluindo o capitão, uma raça de inconformados que estão convencidos de que a piedade consiste em matar o maior número de gregos possível. Os outros eram rapazes do campo, que até ao ano passado nunca tinham tocado num remo. A única coisa que tinham em comum era todos terem um defeito físico. Assim, enquanto não corríamos perigo, eles faziam piadas sobre isto e tratavam-se uns aos outros pelas suas desgraças em vez de pelos seus verdadeiros nomes: Aleijado, Burro, Maneta, Vesgo; cada um deles tinha a sua alcunha. Tudo isto nos divertia imenso. Mas, em tempo de necessidade, não tinha piada nenhuma, pois, nós tínhamos razão para gemer sobre estes defeitos, visto que havia mais de cinquenta passageiros, sendo cerca de um terço mulheres e na maioria jovens e bonitas. Mas não nos invejem, éramos separados por uma cortina, grande e forte, um pedaço de vela que se tinha recentemente rasgado, uma verdadeira muralha de Semiramis aos olhos de homens decentes. Mas até o próprio Príapo seria decente se tivesse sido passageiro no barco do senhor Amaranto. Não havia um momento em que ele nos deixasse descansar do medo de algum perigo mortal. Para começar, depois de passar o cabo do templo de Posídon, decidiu ir a direito para Taposiris com a vela toda enfunada e tentar a sorte na Cilla, aquela que tanto nos assusta nos livros de contos. Quando ele se apercebeu disto, a um cabelo do desastre, gritou, e lá conseguimos forçá-lo a desistir da batalha contra as rochas. Então, mudando a rota do navio, como se tivesse mudado de ideias, lá foi ele para o mar aberto, lutando contra o mar como podia, e mais tarde ajudado por uma brisa suave do Sul.”
Há noite o vento começou a soprar e por volta da meia-noite entraram numa tempestade:

“Os homem gemiam, as mulheres guinchavam, todos rogavam a Deus, gritavam alto, lembrando os seus mais queridos. Apenas Amaranto estava bem disposto, pensando que se iria safar dos seus credores… Notei que os soldados (um grande número de passageiros era constituído por cavaleiros árabes) tinham puxado das suas espadas. Perguntei porquê e eles responderam que preferiam libertar as suas almas para o ar no convés do barco do que afogá-las no mar. Verdadeiros descendentes de Homero, pensei, e aprovei a ideia. Então alguém disse que todos os que tivessem algum ouro o deviam pendurá-lo ao pescoço. Os que tinham, fizeram-no, tanto ouro como qualquer coisa que tivesse valor. As mulheres não só colocaram todas as suas jóias, mas também distribuíram fios a todos o que precisassem. Esta é uma tradição honrada pelo tempo, e a sua razão é a seguinte: deve-se prover o corpo de alguém perdido no mar com dinheiro para pagar o funeral, para que se alguém o encontrar, lucrando com isso, não se importe de dar alguma atenção ao cadáver… O barco estava descontrolado porque não conseguíamos recolher a vela. Repetidamente agarrávamos as cordas mas desistíamos porque ficavam presas nos calços. Começámos a recear, secretamente, que mesmo que escapássemos da violência do mar, chegaríamos a terra durante a noite nesta condição desesperada. Mas o dia nasceu antes disso e olhámos o sol, com um prazer que nunca tínhamos sentido. Com o chegar do calor do dia o vento acalmou e as cordas secaram, e assim conseguimos usá-las para recolher a vela. No entanto, substitui-la por uma vela mais resistente para tempestades era impossível, pois esta tinha ficado no prego. Apanhámos a vela como as dobras de uma túnica e daí por quatro horas, nós, que já esperávamos a morte, desembarcámos num sítio deserto e remoto onde não havia nada à volta. O barco oscilava em todas as direcções, pois estava seguro apenas por uma âncora, a segunda âncora tinha sido vendida e o senhor Amaranto não possuía uma terceira. Quando colocámos os pés em terra, abraçámo-la como se fosse a nossa mãe.”


Traduzi este excerto do livro de Lionel Casson, Travel in the ancient world. Uma excelente obra para se conhecer detalhadamente como se viajava na antiguidade.

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terça-feira, novembro 28, 2006

Surf III - Dicionário Grego Antigo - Francês



É por coisas deste género que vale muito a pena conhecer bem a internet. Foi pena que só depois de ter concluído a minha licenciatura encontrei este sítio na rede, onde está disponível em versão pdf um excelente dicionário Grego-Francês. A pesquisa é muito facilitada se nos habituarmos a usar esta ferramente preciosa e é provável que se ganhe muitas horas de estudo se se usar esta versão on-line em vez do dicionário convencional. E acredito que além de tempo se ganhe também na qualidade da nossa visão, pois no computador sempre se pode fazer zoom e aumentar o tamanho da letra.

Mas já me dou por contente se futuros estudantes de Grego antigo em Portugal beneficiarem desta ferramenta. No entanto, é necessário que continuem a existir alunos de Grego antigo em Portugal, o que é, infelizmente, cada vez mais complicado, como nos conta o Ricardo.

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segunda-feira, novembro 27, 2006

Pervivência I - Orestes

Lembrei-me de iniciar um novo tema no Breve Tempus. Nas pervivências colocarei excertos de músicas, filmes, poemas, prosas e tudo o mais que mostrar que a cultura clássica se manifesta sob as mais diversas formas em múltiplas áreas culturais.
Parece-me que da mesma forma que a água reflecte o brilho da luz numa miríade de reflexos, assim a cultura antiga espalha o seu brilho ao mesmo tempo irrepetível e renovável sobre nós.



A música pertence à banda norte-americana A Perfect Circle e intitula-se Orestes. As imagens que se vêem são uma associação feita por algum anónimo e publicadas no you tube. Pareceu-me que a animação tinha piada e até alguma relevância para o tema. A letra não deixa dúvidas que se refere a Orestes, filho de Agamémnon e Clitemnestra. A letra da música refere o momento preciso em que Orestes se prepara para matar Clitemnestra, sua mãe. Orestes tenta extirpar e cortar a ligação materna para poder realizar o matricídio.

Metaphor for a missing moment
Pull me in to your perfect circle

One womb
One shame
One resolve

Liberate this will
To release us all

Gotta cut away, clear away
Snip away and sever this
Umbilical residue that's
Keeping me from killing you

And from pulling you down with me in here
I can almost hear you scream

One more medicated peaceful moment
Give Me
One more medicated peaceful moment

And I don't wanna feel this overwhelming
Hostility
I don't wanna feel this overwhelming
Hostility

Gotta cut away, clear away
Snip away and sever thisUmbilical residue
Gotta cut away, clear awaySnip away and sever this
Umbilical residue that's
Keeping me from killing you

Snip away and sever this

Keeping me from killing you

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sábado, novembro 25, 2006

Alcibíades – A campanha de Siracusa

Tinha deixado o meu relato da vida de Alcibíades no ponto em que ele tinha conseguido convencer a assembleia da democracia ateniense a avançar com a expedição de Siracusa. É importante referir que, antes deste momento, Alcíbiades já tinha, por um lado, ganho o respeito e a admiração de muitos atenienses, e por outro já era alvo de inveja e tinha ganho muitos inimigos. Nos jogos olímpicos de 424 a.C. participou, como patrono, com sete carros de cavalos numa corrida onde ganhou o primeiro, o segundo e o quarto lugar. Segundo Tucídides, foi também patrocinador de coros em representações dramáticas, o que era obviamente encarado com muito agrado pela população de Atenas. Em 419 conseguiu ser declarado strategós, ou seja, general eleito pelos cidadãos. Nessa posição, Alcíbiades levou a cabo uma política ofensiva contra Esparta e conseguiu juntar algumas cidades como aliadas, preparando-se para reacender a guerra do Peloponeso e arrasar a paz de Nícias.
Em 415 a.C. chegaram a Atenas embaixadores de Segesta, uma cidade siciliana, pedindo a ajuda de Atenas para a sua guerra contra Selino, cidade vizinha de Segesta. Com a chegada dos embaixadores, Alcibíades terá visto uma oportunidade dourada para prosseguir a sua política de expansão de Atenas, política essa que era contrária aos conselhos do seu falecido tio, Péricles. Tucídides registou um dos debates em que Alcibíades e Nícias se confrontaram. Nícias defendia que a campanha seria excessivamente custosa para Atenas e por isso não deveria ser levada a cabo, ao mesmo tempo atacava o carácter, a juventude e os motivos que levavam Alcibíades a apoiar a expedição. Do outro lado, segundo o relato de Tucídides ouvimos o seguinte de Alcibíades:
“…Não deixem que a política de passividade que Nícias defende, ou o seu esquema de colocar os mais velhos contra os mais jovens, vos leve a modificar o vosso propósito. Mas ajamos à maneira dos nossos antepassados, que, mais jovens e mais velhos em conjunto pelas suas decisões nos deixaram a herança que dispomos. Será que vocês estão empenhados em prosseguir desse modo? Lembrem-se que nem a juventude nem a experiência podem fazer alguma coisa, uma sem a outra. (…) Resumindo, a minha convicção é que uma cidade naturalmente activa não pode escolher um caminho mais rápido para a ruína se repentinamente adoptar uma política de inactividade, e com certeza que de modo mais seguro vivem as cidades que menos se afastam dos costumes e das leis do seu tempo…”
O argumento de Alcibíades entende-se melhor se for inserido no contexto da guerra do Peloponeso, onde Atenas e Esparta disputavam a hegemonia da Grécia, naquele momento preciso Atenas tinha alguma vantagem militar sobre Esparta. Contudo, Nícias, apercebendo-se que Alcibíades controlava a assembleia, resolveu argumentar da forma contrária e afirmou que seria necessária uma campanha megalómana e desmesurada para obter sucesso na Sicília. Ora, esta argumentação saiu-lhe pela culatra, pois os atenienses entusiasmaram-se com a grandiosidade da expedição e votaram a favor da invasão da Sicília. Contra a sua vontade Nícias foi designado strategós em conjunto com Alcibíades e Lâmaco.
No entanto, um acontecimento inesperado viria a alterar o rumo dos acontecimentos de forma brutal. Enquanto se realizavam os preparativos para a expedição, as faces das Hermae, estátuas sagradas de Hermes espalhadas pela cidade, apareceram mutiladas de um dia para o outro. A associação deste crime sacrílego com a ruína da expedição foi imediata. Na mesma altura, surgiram rumores de actos de profanação sobre os mistérios de Elêusis levados a cabo por grupos de jovens ébrios. Apesar de os mistérios de Elêusis não estarem directamente relacionados com as estátuas de Hermes, os inimigos de Alcibíades levantaram o rumor de que o jovem ateniense estaria envolvido nestes actos de profanação. Não posso resistir a partilhar convosco uma reflexão sobre o modo como a política é feita pelo homem há milhares de anos. Comparemos este caso da acusação a Alcibíades, obviamente, uma manobra política levada a cabo para o desacreditar, aproveitando a sua fama de jovem impetuoso, com o recente caso de Mónica Lewinsky nos EUA, onde se aproveitou uma fraqueza pessoal para se deitar a baixo um presidente.
Regressando à Atenas do século V, Alcibíades tentou limpar o nome e resolver a situação com um julgamento, mas os seus inimigos conseguiram protelar o julgamento para que Alcibíades partisse na expedição e fosse mais tarde julgado à revelia, o que acabou por acontecer. Tucídides (VI, 30-32) deixou-nos um relato impressionante da partida da “campanha que era de longe a mais custosa e esplêndida força Grega que alguma vez tinha sido enviada por uma única cidade”. Quando a frota ateniense se encontrava na Catânia, preparando-se para a invasão da Sicília, um barco enviado de Atenas mandava Alcibíades regressar à cidade para ser julgado por sacrilégio. Os inimigos de Alcibíades não tinham ficado em repouso, e, aproveitando a sua ausência, manobraram os poucos atenienses que tinham permanecido na cidade para que a hostilidade para com o jovem general tomasse conta da cidade.
Frustrado por não poder participar na campanha que tinha apadrinhado, Alcibíades acompanhou no seu próprio navio o barco ateniense até um certo ponto, onde o jovem general desapareceu. Desta forma, Alcibíades tornou-se um foragido para os atenienses que o condenaram à morte num julgamento feito à sua revelia.
O que restava a Alcibíades? Poderia ter-se remetido ao exílio, permanecendo numa colónia que o recebesse e o deixasse viver. No entanto, retomando a comparação de Aristófanes (Rãs, v. 1427), os leões não são escorraçados do seu território com facilidade. Alcibíades rumou para o Peloponeso e foi bem recebido pelos Espartanos, apesar de antes terem sido inimigos mortais. Mais significativo ainda, foi a sua influência para que os espartanos enviassem uma força de apoio aos sicilianos, frustrando a invasão dos atenienses. A expedição ateniense revelou-se um fracasso, tanto por ter subestimado os inimigos como por ter perdido para o outro lado o homem que tanto se tinha esforçado para realizar a campanha militar. A partir do momento em que Atenas falhou na Sicília e perdeu o domínio dos mares, foi apenas uma questão de tempo para que Esparta ganhasse a guerra do Peloponeso.

Espero que daqui a alguns dias possa retomar o relato da vida de Alcibíades que ainda tem muito para contar. Ainda falta contar como se tornou amante da rainha de Esparta, como tomou o lado dos Persas para se salvar da vingança do rei espartano e como finalmente regressou a Atenas aclamado como um herói.

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quarta-feira, novembro 22, 2006

Séneca, Epicuro e a morte

Séneca tinha uma concepção da morte admirável, uma visão perturbantemente actual, por um lado devido à problemática da eutanásia, e por outro, devido à poderosíssima mensagem de dignidade humana que veicula. Mas se a morte era insignificante para os estóicos, vejamos como a olhavam os epicuristas.

“Acostuma-te a pensar que a morte não é nada para nós, porque todo o bem e todo o mal residem na sensação. Assim, um entendimento correcto deste facto torna a vida mortal deliciosa, visto que não impõe um tempo infinito, pelo contrário afasta o desejo de imortalidade. [125] Porque nada há de terrível na vida para quem compreende que não há nada de terrível em não viver. (…) A morte, o mais tenebroso dos males, não é nada para nós, porque enquanto nós existimos, a morte não existe e quando a morte está presente nós estamos ausentes.”

Epicuro, Carta a Meneceu 124-125.

Confesso que se o Jardim ainda tivesse as portas abertas, eu com certeza o visitaria muitas vezes. O ápeiros cronos, ou seja, o tempo infinito não me deslumbra, apesar de compreender perfeitamente a sua imensa capacidade sedutora. A sedução da imortalidade da alma está tão presente no ser humano que o levou a criar as obras de arte mais belas, desde Miguel Ângelo a Gaudí, e por isso não me parece que seja uma ideia a desprezar, muito pelo contrário, mas sim uma ideia a apreciar como admiramos a poesia que há na vida.
Não resisto a fazer um breve apontamento sobre a linguagem de Epicuro. Quando li pela primeira vez Epicuro em grego, espantou-me a simplicidade da língua e a forma directa e consistente como aborda temas tão colossais como a morte. A limpidez e clareza do vocabulário é surpreendente, garanto-vos. No entanto esta simplicidade não é inocente nem ingénua, ela acontece porque Epicuro queria chegar a toda gente e isso só é possível se qualquer pessoa entender facilmente o discurso do filósofo.

Imagem: Thomasz Kostecki, Gaudi, 1996

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segunda-feira, novembro 20, 2006

Dioniso II

Começo a cantar Dioniso de grito retumbante, o coroado de marfim,
o esplêndido filho de Zeus e da célebre Sémele.
Aquele que as ninfas de belas tranças receberam do pai senhor,
acolhendo-o no seu seio, e criaram carinhosamente nos vales do Niso.
Com a graça de Zeus, aí cresceu, numa gruta fragrante,
para ser contado entre os imortais.
Mas quando as Deusas criaram o muito cantado Deus, ele
começou a vaguear pelos regatos repletos de árvores coberto de louro e hera,
as ninfas seguindo-o como líder e o seu clamor invadindo a imensa floresta.

Salve a ti, Dioniso, rico em uvas,
concede-nos a alegria do regresso da estação
e que as estações se repitam por muitos anos.


Uma tradução possível para o hino homérico XXVI dedicado a Dioniso, rico em uvas. Espero que Dioniso me perdoe, fiz o que pude...
Os hinos homéricos são uma colecção de textos anónimos que datam provavelmente dos séculos VII a VI a.C. Evocam os deuses do panteão olímpico e algumas divindades menores. Os antigos atribuíam estes textos ao próprio Homero, daí o nome, mas já os exegetas alexandrinos punham em causa a sua autoria. Os autores eram muito verosimilmente rapsodos. Estes textos agradam-me particularmente pela sua simplicidade estética e ao mesmo tempo pela sua capacidade poética. Por isso, é possível que aqui apareçam mais vezes.
Deixo-vos em seguida com um excerto que me parece muito pertinente para o nosso entendimento das várias faces de Dioniso.

“… o êxtase dionisíaco não é algo que é alcançado por um indivíduo só, mas um fenómeno de massas que se propaga de modo quase contagioso. Em termos mitológicos, isto significa que o deus está constantemente rodeado do enxame e do frenesim dos seus adoradores e adoradoras. Quem se entrega a este deus arrisca-se a perder a sua identidade social e a «ser louco». Isto é ao mesmo tempo divino e terapêutico. O sinal exterior e o instrumento da metamorfose provocada pelo deus é a máscara. A fusão entre o deus e o seu adorador que ocorre durante esta metamorfose não tem paralelo no resto da religião grega. «Bacchos» é o nome tanto de um como de outro.”

Excerto de: Burkert, Walter, Religião grega na época clássica e arcaica, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 1993, p.318.

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domingo, novembro 19, 2006

Surf II



Elpenor

Um sítio dedicado à cultura helénica que oferece uma surpreendente biblioteca de textos bilingues, grego – inglês, muito útil para usar como complemento ao Perseus. O sítio disponibiliza ainda um fórum de discussão (inglês), onde se colocam questões variadas e se trocam impressões sobre os gregos antigos a todos os níveis, língua, cultura, filosofia, religião. Além disto, oferece algumas lições de grego antigo para os mais aventureiros.


Textkit

Fundamental para qualquer estudante ou amante do latim e grego. Disponibiliza para descarregamento várias ferramentas essenciais para o estudo das línguas antigas. Desde as gramáticas mais conceituadas e ainda em uso (Goodwin, etc.), até livros de exercícios que ensinam a escrever latim e grego antigo com as respectivas soluções.
Além disso oferecem inúmeras traduções para inglês das obras mais fundamentais da antiguidade, épica, tragédia, história, filosofia, poesia, etc. Tudo completamente grátis. Disponibilizam ainda um fórum onde se podem colocar questões pertinentes ao estudo das línguas clássicas.

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sábado, novembro 18, 2006

Dialéctica II

Encontrei o seguinte no blog de Xantipa, esposa de Sócrates:

"Diógenes: ...Porque choras, ó palerma? Não foi isto que o sábio Aristóteles te ensinou, a saber, não acreditar que são estáveis as coisas dependentes da sorte?"
Alexandre: Um sábio, esse indivíduo, ele que foi o mais safado de todos os aduladores? Deixa que só eu conheça os ensinamentos de Aristóteles, quantas coisas me pedia e quais as que me encomendou, e como ele abusou do meu entusiasmo pela cultura, adulando-me elogiando-me ora a beleza, como se ela fosse uma parte do bem, ora as minhas acções e a minha riqueza. (...) Um charlatão, ó Diógenes, e um comediante!..."

Luciano, pela boca de Diógenes, oferece-nos uma face pouco vista de Alexandre, um palerma desorientado que chegou ao Hades e não sabe para que lado se há de virar. Por sua vez Alexandre dá-nos uma visão ainda mais heterodoxa de Aristóteles. Parece-me muito interessante que por vezes olhe-mos os personagens históricos, sejam filósofos, imperadores ou cortesãs, através de diferentes perspectivas, obtendo assim diferentes panoramas do que essas pessoas poderão ter sido.

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sexta-feira, novembro 17, 2006

Alcibíades - Juventude






"Ésquilo: Não deves criar uma cria de leão na cidade, mas se alguém o fizer habituem-se aos seus costumes" Aristófanes, Rãs v. 1427.


Alcibíades foi uma personagem histórica extremamente polémica, no sentido etimológico da palavra “polémico”, ou seja do grego pólemos – «guerra», pois toda a vida esteve em guerra contra espartanos, persas, atenienses e até mesmo contra si próprio.
Este homem teve Péricles como tutor, combateu e estudou ao lado de Sócrates, comandou a frota Ateniense, foi amante da mulher do rei dos Espartanos e braço direito do sátrapa da Pérsia. Estes são apenas alguns acontecimentos de uma vida curta, Alcíbiades morreu aproximadamente com quarenta e seis anos, mas cheia de incidentes. Ainda hoje, Alcíbiades divide os historiadores sobre as suas verdadeiras intenções. Seria movido pelo tão helénico amor à glória? Ou era apenas um miserável traidor sem escrúpulos? Será que não aprendeu nada com Sócrates?
Um facto ninguém poderá negar, Alcibíades era um homem onde a pathos, a paixão, muitas vezes se sobrepunha à logos, a razão. Não posso deixar de admirar com um sorriso nos lábios a vida agitada deste homem, apesar de a observar à distância de quase três milénios. Acho surpreendente que o romance ou a indústria cinematográfica ainda não tenha pegado neste personagem tão ambíguo como surpreendente. Alguns adjectivos que poderíamos ligar a este homem seriam: amante, destemido, irreverente, inteligente, surpreendente, encantador, versátil, desalinhado, criminoso, expatriado, ímpio, desejado, odiado e amado.
Alcíbiades nasceu em Atenas cerca de 450 a.C., herdou a tradição na política ateniense da família. Após a morte de Clínias, seu pai, na batalha de Corona (447), Alcíbiades foi educado sob a tutela de Péricles, o homem que mandou erguer o Parténon. Todas as fontes afirmam que o jovem Alcibíades foi amigo e discípulo de Sócrates. Combateu ao lado do filósofo e Plutarco relata que Alcíbiades lhe terá ficado a dever a vida na batalha de Potidea. Se foram ou não amantes pouco interessa, mas com certeza tinham uma relação muito próxima.
Mas que teria este jovem de dezoito anos de especial para que uma das maiores personalidades da humanidade arrisca-se a sua vida pela dele?
Sócrates com certeza não se deixaria “apanhar” apenas pela sua beleza física, a qual, segundo Plutarco (Alc. I), “não é necessário referir nada excepto que era igualmente fascinante quando foi um rapaz, um jovem e um homem.”. Segundo consta, o jovem prodígio ficou fascinado pelo desinteresse de Sócrates e aprendeu a desprezar-se a si próprio e a admirar a natureza singular de Sócrates. Os antigos afirmam que ele levava uma vida paralela, onde, por um lado convivia e apreciava a virtude nua e crua de Sócrates e, por outro lado, deixava-se afundar em deboches excessivos. Provavelmente, foi esta precoce dualidade que lhe permitiu mais tarde adaptar-se a mundos tão diferentes como a austeridade espartana e a opulência persa.
Ainda jovem mergulhou na vida política e escolheu como adversário principal Nícias e a paz que este general ateniense tinha conseguido com os espartanos, a chamada paz de Nícias. Alcíbiades não descansou enquanto não demoveu os atenienses para adoptarem uma posição mais hostil para com os Lacedemónios.
Usando a sua perícia oratória e algumas jogadas menos claras, persuadiu os atenienses a tomarem a sua posição. Sobre a sua capacidade oratória registo esta frase de Habinek “a audiência respondia à afeição de Alcíbiades com a sua própria afeição, assim o orador era a instituição da pólis falando e maravilhando-se consigo própria.”.
Alcíbiades persuadiu a ecclesia, ou seja, a democracia dos atenienses, a levar a cabo a conquista de Siracusa, que foi um dos maiores desastres da história de Atenas, mas a isto regressarei na próxima parte da vida de Alcíbiades.

Mais informação:
Alcíbiades num bom artigo da wikipedia
A vida de Alcíbiades segundo Plutarco (Inglês)
Alcíbiades no dicionário do Smith (óptimo para pesquisar fontes primárias)

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quarta-feira, novembro 15, 2006

Dialéctica I

MGReis aprofundou e interpretou o "Poeta fabricante", afirmando:

“…nesta nossa era onde todo o passado faliu e o futuro é desconhecido ou fundado, muitas vezes, em quimeras.”
Infelizmente é forçoso concordar consigo nesta afirmação negra, mas real, da actualidade. Por isso, penso que há uma inquestionável urgência em valorizar a história da humanidade, tentando que esta não seja vista como um livro velho e desinteressante que está fora das tendências da moda regidas pelo efémero e superficial.

“…sobreviveu a forma, mas não a 'fabricação'. Dizia Wilde: "One can exist
without art, but one cannot live without it".”
Quanto à sobrevivência da forma, também estou em pleno acordo consigo, e a citação de Wilde que escolheu é acutilante. A diferença entre existir e viver, aproveitando Wilde, está ligada à qualidade de vida das pessoas, e, como sabemos, ela difere brutalmente entre Norte e Sul ou entre Ocidente e Oriente, ou seja, entre “consumidos” e “consumidores”.

"Mas a verdade é que a ciência não vai além da lógica, e a lógica nada pode trazer ao transcendente.”
Aqui já não posso afirmar que partilhamos a mesma estrada, apesar de a direcção ser provavelmente a mesma. Pessoalmente, estou convencido de que a ciência, através do denominado “método científico”, terá um papel fulcral na explicação do transcendente. Sobretudo na cosmologia, campo em que o meu conhecimento é muito limitado, mas ainda assim vejo aqui grande potencial para explicar o transcendente. Um conterrâneo nosso elaborou uma teoria que me parece muito interessante nesta área. E o que poderá ser mais transcendente do que responder a esta questão?

No entanto,como já lhe referi, ainda bem que "Ao fim e ao cabo, os velhos problemas ainda jazem à nossa porta, esperando pela nossa resposta.". Pois se já tivéssemos todas as respostas a vida perderia muitas das cores que nos fazem brilhar os olhos.

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segunda-feira, novembro 13, 2006

Etimologia para descontrair II - O poeta fabricante


Quando pensamos num poeta indeterminado, vem-nos à cabeça alguém que dedica a sua vida às letras, mas para muitos é difícil abandonar totalmente o estigma do poeta preguiçoso que quer ganhar a vida sem fazer nada. Contudo, a etimologia da palavra «poeta» pode ajudar a limpar este estigma.
A palavra «poeta» provem quase directamente do grego, pois, passou pelo latim, mas apenas como um empréstimo do grego. A forma grega era poietés, muito semelhante ao “nosso” «poeta». A raiz *poie- é a mesma que encontramos no verbo grego poiéo, cujo significado primário é fabricar, compor ou fazer. Será que afinal o poeta sempre faz alguma coisa?
Continuando, outros significados de poietés eram fabricante, criador e legislador, ou seja, aquele que faz alguma coisa. Ao mesmo tempo, poiéma, o nosso «poema», significava “o objecto fabricado”. Assim, apercebemo-nos que os gregos davam ao poeta uma dimensão criadora mais concreta e prática do que a actual. O poeta era o homem que fabricava mitos, dramas e realidades com a matéria-prima mais humana que tinha à disposição, a linguagem. Esta ligação ao acto de fabricar, num sentido concreto, perdeu-se com o passar do tempo. Todavia a forma mantém-se quase igual desde os últimos três mil anos, o que é um facto assinalável.

Pintura: Lanfranco, Il poeta fossile (1954).

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sexta-feira, novembro 10, 2006

Por lapso meu apenas os outros bloggers, (em português dá blogueiros, feio não é?), podiam fazer comentários. Esta não era a minha intenção. Peço desculpa a todos os que quiseram comentar e não puderam.
Agora podem comentar à vontade o que quiserem.
Obrigado Susana por me teres avisado deste pormenor técnico.

Jogos


Li aqui, que o estado pretende oferecer aos nossos nadadores as seguintes quantias: 800 € por mês se o nadador for capaz de atingir os vinte primeiros lugares do ranking mundial; 500 € para um bom lugar nos campeonatos do mundo (>16º); 300 € para um bom lugar nos europeus (>14º); 150 € para uma perspectiva de participação nos Jogos Olímpicos de Pequim.
Estas quantias até podem parecer avultadas a muitos “Tio Patinhas” que por aí formigam, mas mesmo a esses, peço que me acompanhem numa reflexão extremamente anacrónica, mas muito curiosa.
Nos Jogos Olímpicos da antiguidade apenas os atletas vencedores eram “olímpicos”, ao contrário de hoje em dia em que o adjectivo “olímpico” é aplicado a qualquer participante nos Jogos. Quanto aos outros, segundos, terceiros ou últimos, esses não eram ninguém. Um vencedor olímpico era considerado como um semi-deus. Cada cidade recebia o seu vencedor com celebrações que incluíam honras públicas de todo o tipo, mas sempre de uma grandeza impressionante. A sua vitória significava que um Deus estaria ao lado do atleta, o que lhe dava para o resto da vida um estatuto especial no seio da sua cidade. Além dos prémios monetários que recebiam mal regressavam a casa, os atletas eram premiados com várias ofertas, que podiam ir até à construção de uma estátua na cidade ou à isenção de pagar impostos para o resto da vida, ou ainda a oferta de refeições grátis ad aeternum, sim, daquelas grátis, mesmo grátis…
Outra recompensa pela vitória olímpica consistia na celebração através de um epinício, uma composição poética e musical que proclamava o vencedor. Chegaram até nós várias odes deste tipo escritas por Píndaro.
Bem sabemos que hoje em dia os jogadores de futebol têm direito a uma semi-isenção aos impostos, e que como referi em cima, oferecemos incentivos pecuniários aos nadadores que ficam nos lugares cimeiros. Contudo há algo aqui que me parece deslocado e quase grotesco.
Tenhamos em conta que um nadador para conseguir estar presente nos J.O. terá que treinar seis vezes por semana mais de três horas por dia. No caso de Portugal já sabemos que nenhum deles será vencedor, mas ainda assim penso que merecem o nosso respeito e admiração.
Tudo isto para concluir que 150 € para uma esperança olímpica parece-me pouco, mesmo muito pouco, provavelmente nem deve chegar para pagar as quotas ao clube onde estão inscritos e os transportes para a piscina e para as provas sazonais. Quanto aos 800 €, servem apenas como incentivo a quem conseguir (hipoteticamente) lá chegar, porque segundo soube não existem nadadores portugueses a esse nível.
Lembremo-nos agora dos desportos milionários como o golfe, o ténis, o futebol, e outros em que tenho sérias dúvidas que seja necessário treinar com o esforço e o sacrifício dos “verdadeiros” desportos como o atletismo, a natação e outras modalidades onde o esforço físico obriga a uma dedicação muito real. Esta é a minha opinião, mas cada um tem o seu gosto.
Na verdade, nunca me hão de convencer que o feito de conseguir enfiar uma bola num buraco com um taco, ou até mesmo uma bola numa baliza com o pé, vale as somas exorbitantes que esses “atletas” recebem.
Se nos parece, na nossa visão ocidental/cristã, que os antigos gregos pecavam pelo seu desprezo dos não vencedores, porque é que fomentamos os desportos milionários e desprezamos os seus parentes mais pobres?
A resposta poderá estar, em parte, no facto que valorizamos o espectáculo e o dinheiro que daí resulta, enquanto que os antigos gregos valorizavam, mais do que nós o fazemos, o sacrifício e a vitória. No entanto, continuo sem perceber o que há de espectacular em enfiar uma bola num buraco com um taco...

P.S.
Se gostarem de natação passem pelo Beba Água, um blog de nadadores para nadadores.

Etimologia para descontrair I


Percamos alguns segundos a pensar nas seguintes palavras: «linha» e «linho». Será que têm alguma relação entre si? A «linha» possui uma riqueza lexical impressionante: linha de pesca, linha de água, linha desenhada, linha de coser, etc. Será que o «linho» tem alguma coisa a ver com isto? Ou a semelhança ortográfica é apenas ilusória? A palavra «linho» provém do latim linum, onde já significava a planta ou o tecido. «Linha» provém do latim linea, já com quase todos os significados do português actual. Linea é a forma feminina do adjectivo lineus, a, um, significando “de linho”. Deste modo, verifica-se que por vezes as aparências não iludem! A linha “vem” mesmo do linho.

Bom fim-de-semana a todos!

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quinta-feira, novembro 09, 2006

Áccio

No dia dois de Setembro de 31 a.C. deu-se um dos acontecimentos mais importantes na história da humanidade. À primeira vista, a batalha de Áccio parece uma batalha como tantas outras, fruto de uma fratricida guerra civil, mas apenas mais uma entre as muitas que atingiram os romanos. No entanto, se erguermos o nosso campo de visão e abrangermos um ou dois séculos percebemos a monumental importância de Áccio. Nesse dia ficou decidido que Octaviano seria o futuro senhor de Roma, enquanto que Marco António e Cleópatra entravam para a grande lista de célebres derrotados. Apenas quatro anos depois, Octaviano tornou-se Augusto, o primeiro Imperador de Roma, provavelmente a personagem histórica mais decisiva da história do império romano. Foi Augusto que edificou o sistema imperial que durou mais de três séculos, sepultando definitivamente as cinzas da república romana.
Se, por um momento, imaginarmos que nesse dia a história tivesse seguido por outro caminho, notaremos que a história da civilização ocidental, como hoje a conhecemos, seria com certeza muito diferente. Supondo que a união de Marco António e Cleópatra ganharia solidez e que ambos fundariam um império ainda mais multicultural e ecuménico do que a Roma de Augusto, é fácil vislumbrar uma Europa totalmente diferente em que o peso de Alexandria e do médio oriente seria com certeza maior.
Mas basta de especulação. Olhemos antes para os factos que decidiram o destino da Europa, nesse dia de fim de Verão.
Antes da batalha de Áccio, Marco António levou a sua frota para o golfo da Ambrácia, na costa ocidental da Grécia. Aí montou um considerável sistema defensivo, guardando a entrada do golfo. Octaviano cercou as forças de António, mas os combates que se seguiram mantiveram um equilíbrio vacilante. No entanto, a incerteza trouxe problemas a Marco António, pois a propaganda de Augusto, aproveitando o facto de Cleópatra estar junto do seu adversário, difamava o casal e comprometia a lealdade de António para com os romanos. A hábil propaganda de Augusto tinha como alvo Cleópatra e indicava-a como verdadeiro inimigo de Roma, António seria apenas um fantoche nas suas mãos. Como seria de esperar esta situação criou cisões no seio do exército de António e muitos quiseram afastar Cleópatra para ganhar o apoio de Roma. No entanto, não o conseguiram fazer. Cleópatra ficou junto de António e apenas partiu no pior momento possível.
No fim de Agosto, António decidiu avançar ao encontro de Octaviano. A frota de António consistia sobretudo de enormes quinquirremes, barcos gigantescos movidos por cinco filas de remadores. Por outro lado a frota de Octaviano era maioritariamente constituída por barcos mais pequenos e manobráveis. Os grandes quinquirremes teriam a suposta vantagem de terem maior tamanho para abalroarem os barcos menores. Contudo a manobrabilidade dos barcos de Octaviano revelou-se fundamental. Os grandes navios não conseguiam acertar nos barcos menores que não deixavam de os atacar com tudo o que podiam. A batalha prosseguiu durante todo o dia. Ambas as frotas optaram por usar tácticas de guerra em terra, lançando setas e lanças aos barcos inimigos, o que obtinha poucos resultados. Ao final da tarde, Cleópatra e o seu esquadrão de sessenta navios egípcios ergueram as velas e afastaram-se da batalha em direcção ao mar alto.
Até hoje, os historiadores debatem os motivos da fuga Cleópatra, e mais estranho ainda, desconhecem-se as razões que levaram Marco António a abandonar o seu exército de milhares de homens e partir com quarenta navios no encalço de Cleópatra. As hipóteses são várias, uns afirmam que António ficou furioso com Cleópatra e partiu impetuosamente sem pensar nas circunstâncias, outros afirmam que tudo teria sido combinado para o casal de amantes conseguir escapar ao cerco de Octaviano. Seja como for, quer tenha sido amor, medo, ódio, excesso ou falta de confiança a causa da fuga de António, o resultado foi uma declarada vitória de Octaviano. No final do dia o exército de António perdeu cerca de cinco mil homens e três centenas de navios de guerra.
Uma semana depois o exército terreno de António, que estava acampado no local, rendeu-se. Passado um ano da batalha de Áccio, Octaviano preparava-se para capturar António com vida, mas este suicidou-se. Cleópatra optou pela mesma saída que o seu amante, provavelmente antevendo a humilhação de ser arrastada pelas ruas de Roma como prisioneira, deste modo, preferiu o amargo veneno de uma serpente no seu palácio em Alexandria.

Mais informação:
Descrição histórica
Cleópatra e Marco António na Wikipedia
Arquelogia subaquática no local da batalha

Emenda:
Graças ao muito atento Ricardo emendei Ácio por Áccio.

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quarta-feira, novembro 08, 2006

Surf I



"Dictionary of Greek and Roman Biography and Mythology by William Smith (1867) — three-volume, 3,700-page ocean of Greek and Roman historical, literary and mythological figures."

Infelizmente o meu tempo não me permite elaborar textos sempre com a mesma profundidade. Nesses dias mais apertados, deixarei aqui ligações para sítios na rede que considero que valem a pena visitar e guardar nos favoritos.
Este é um desses sítios, o subtítulo é explicativo. O único requisito necessário é saber Inglês. Esta obra de Smith é absolutamente monumental e contém uma miríade de entradas sobre personagens históricas, literárias e mitológicas. A sua utilidade é imensa para qualquer um que estude os clássicos, e também para os amantes dos antigos. Se tiverem tempo façam o seguinte teste: lembrem-se da personagem mais recôndita, apagada e desconhecida que souberem e escrevam na caixa “letter/word”. Atenção porque têm que saber a forma do nome em Inglês, o que por vezes não é tão simples como parece. Se não obtiverem informações úteis aceito as vossas reclamações.

O autor do sítio é Tim Spalding, a quem presto a minha homenagem pelo excelente trabalho.
Bom surf!

P.S.
Se calhar já repararam que escrevo sítio e não site, rede e não net, ligação e não link, confesso que não falo assim, mas na escrita não há desculpa, pois penso que o português ainda tem riqueza lexical suficiente para abranger estas “novas” palavras. Quanto a surf a conversa é outra.

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segunda-feira, novembro 06, 2006

Dioniso I

Um dos mais fascinantes deuses da antiguidade sempre foi, para mim, Dioniso. A sua importância prende-se sobretudo à sua estreita ligação com a sublime forma de arte que conhecemos na tragédia ática. A essência da tragédia, para mim, tem muito que ver com a ambiência religiosa que rodeava a Grande Dionísia, normalmente realizada em Março, quando a Primavera inicia a renovação do ciclo da vida. Mas a esta ligação voltarei noutro momento. Penso que irei elaborar uma série de textos sobre Dioniso, porque muitas são as suas facetas e reflexões na cultura helénica. Mas para já queria deixar o elenco dessas diferentes faces da mesma divindade:

Deus do vinho, que ensinou aos mortais a arte de extrair o doce vinho das uvas.
Deus da natureza selvagem, associado com o crescimento da vegetação e com o ciclo eterno das estações do ano; ainda nesta perspectiva está associado com o poder do Deus na sexualidade masculina.
Deus da possessão extática, caracterizado pelo comportamento alucinado das ménades.
Deus da dança, acompanhado por sátiros e ninfas.
Deus da máscara e do disfarce, obviamente muito significativo para o drama ático.
Deus da iniciação mística, que oferece aos seus seguidores a possibilidade de bem-aventurança numa vida depois da morte.

Segundo o Professor José Pedro Serra, uma das principais características de Dioniso, na sua relação com a tragédia ática, é a sua importância na definição de uma “alteridade do Eu”. O que se prende com uma reflexão sobre a máscara na identidade do actor que a usa. Dioniso será o Deus estrangeiro, que vem de fora, trazendo consigo essa reflexão, ao mesmo tempo subtil e profundíssima, sobre a identidade do outro que no fundo é um outro Eu.
Apenas um apontamento de cariz etimológico sobre a possessão extáctica, do grego ekstatikós, «aquele que está fora de si». Se analisarmos a palavra mais de perto temos ek, que significa «estar fora, afastado» e statikos que vem da raiz *sta-, de onde também provém o verbo latino sto, mais familiar no nosso português em «estou». Portanto, ek + statikos, «aquele que está fora». Mais um contributo para o afastamento do Eu de si próprio, numa cedência ao que temos de mais profundo em nós, esse outro Eu que dança, arranca as ervas com mãos do chão, apanha e dilacera pequenos animais selvagens e que come a sua carne crua e ensanguentada. As ménades mais não são do que um oposto total ao homem do lógos, da razão. Agora junte-se a este facto, a ideia de que Dioniso está em ligação directa com a própria essência da pólis, através do seu culto e das representações da tragédia. Essa mesma pólis conhece, exactamente na mesma época, Sócrates o mais “puro” homem-lógos que a humanidade concebeu.
Espero que o que escrevi seja compreensível para todos, mas confesso que esta é uma questão extremamente complexa para mim e que não posso deixar de estremecer, ao reflectir que esta aparente antinomia entre loucura e razão ainda terá muito a dizer na história da humanidade.

Fontes:
Easterling, P. E., “A show for Dionysus”, in The Cambridge Companion to Greek Tragedy.
Oxford Companion to Classical Literature.
e a “magistral” aula do professor José Pedro Serra sobre tragédia.

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sábado, novembro 04, 2006

O silêncio do mármore ou o ruído do mercado?


Quando se imagina a vida no quotidiano da Roma antiga tem-se tendência a imaginar grandes edifícios de mármore branco, limpos e puros, onde imperadores e generais se exibem em armaduras douradas para uma multidão de pessoas bem vestidas e bem penteadas. Esta imagem é a que nos foi oferecida pela maior parte dos filmes de Hollywood dos meados do século XX, no entanto, a realidade não era bem esta. Actualmente, os realizadores de Hollywood abandonaram a brancura impoluta do mármore para abraçarem o sangue e o ruído da multidão do coliseu. O gladiador tornou-se a figura em realce e as guerras épicas voltaram aos ecrãs, agora com actores menos penteados e mais sujos de sangue, mas bem mais reais. Contudo o destaque de Hollywood vai todo para o sangue e para a violência, quer seja a das arenas e coliseus ou a das batalhas reais. Ficamos com a ideia de que a vida dos romanos, não passava de duas coisas: ver combates no coliseu, ou então, guerrear contra outros romanos ou contra bárbaros invasores.
A violência era uma característica incontornável da sociedade romana, por sinal tal como da nossa sociedade actual. É verdade que os gladiadores eram admirados pelos cidadãos e alguns vistos como heróis, no entanto a vida em Roma tinha algo mais do que isso. E é justamente isso que pretendo deixar claro neste excerto que traduzi do brilhante livro de Jérôme Carcopino, La Vie quotidienne a Rome:

Durante o dia reinava uma intensa animação, um acotovelar ofegante e uma algazarra infernal. As "tabernae" mal abriam enchiam de gente, estravasando os produtos para a rua. Aqui, barbeiros faziam a barba aos clientes no meio da passagem. Aí andavam os vendedores ambulantes da Transtiberina negociando pacotes de fósforos de enxofre e quinquilharias de vidro. Mais à frente, o dono de uma casa de pasto, rouco de gritar a ouvidos moucos, exibia as suas salsichas, chiando de quente, na frigideira. Professores e alunos gritavam até à rouquidão, uns para os outros, ao ar livre. De um lado, um cambista retinia as suas moedas com a face de Nero numa mesa suja, de outro um ourives malhava com a sua marreta numa pedra já gasta pelo uso. Nos cruzamentos reunia-se um círculo de transeuntes à volta de um domador de cobras. Por todo o lado ressoavam os martelos dos funileiros e as trémulas vozes dos pedintes, invocando o nome de Bellona ou contando as suas aventuras e desventuras para tocar o coração dos transeuntes. O fluxo de pedestres era interminável e os obstáculos no seu caminho não impediam que rapidamente a corrente se transforma-se em torrente. Ao sol ou à sombra uma multidão de gente ia e vinha, gritava, empurrava, caminhando por vias apertadas…*

Felizmente que a visão do séc. XXI da Roma antiga parece estar cada vez mais perto da realidade, e gostei muito de ver na RTP2 a série Roma, uma parceria da BBC com a HBO. Nessa série, não deixa de haver gladiadores e batalhas sangrentas, no entanto, o destaque é dado a dois soldados “rasos” da legião de César e às suas vidas no seio da camada popular que constituía a esmagadora maioria dos romanos. Se ainda não viram a série, vejam-na, o DVD está à venda nos locais do costume.

*pp. 48-49 da versão inglesa da Yale University Press.

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sexta-feira, novembro 03, 2006

Arrumar a casa nova...

Estou a arrumar esta nova casa, que é o breve tempus. Criar ligações a páginas na rede, a blogs de amigos, colegas, e desconhecidos. Adaptar a template que a blogger.com oferece: aumentar o espaço de escrita, melhorar as cores (gosto muito de verde, mas há limites!), formatar o tamanho e tipo da letra e outras coisas assim do género.

No fim de semana escreverei um post novo sobre algum "momento" da cultura antiga.

quarta-feira, novembro 01, 2006

Hiparquia, a filósofa grega



Enquanto realizava as minhas leituras sobre filosofia antiga, deparei-me com o nome desta mulher, Hiparquia, fiquei curioso e fui consultar alguma bibliografia sobre ela e a curiosidade em vez de diminuir, antes aumentou. Descobri que Hiparquia foi uma filósofa, que não pertenceu a nenhuma escola filosófica, mas aderiu, por motivos singulares, ao modo de vida dos Cínicos.
Na antiguidade as mulheres tinham um estatuto claramente inferior aos homens, sobretudo na Grécia antiga, onde não eram consideradas cidadãs de direito e todas as actividades socialmente activas eram-lhes negadas, exceptuando as actividades religiosas. Por isso o meu interesse nesta mulher que seguiu o caminho da filosofia e que se terá notabilizado pelos seus tratados filosóficos, mas infelizmente nenhum chegou até nós.
Hiparquia, pertencente a uma família abastada da Trácia, foi mulher de Crates, um eminente Cínico de Tebas. Confirmando a sua importância na história da filosofia antiga, Diógenes de Laércio dedica-lhe um capítulo descrevendo muito brevemente a sua vida, realçando o momento da sua união com Crates:
“Ela apaixonou-se tanto por Crates como pelas suas doutrinas filosóficas, e não podia ser desviada do seu amor por ele, nem pela riqueza, nem pela linhagem ou beleza de qualquer dos seus pretendentes, pois Crates era tudo para ela. Chegou ao ponto de ameaçar os pais com o suicídio se não a deixassem casar com ele. Crates, tendo-lhe sido pedido que a dissuadisse da sua resolução, fez o que pode, e por fim, visto que não a conseguia persuadir, levantou-se e colocou todos os seus escassos pertences à frente dela e disse-lhe: «Este é o noivo que escolhes, e esta é toda a sua propriedade, pensa nisto, porque não poderás ser sua parceira se não partilhares com ele os seus hábitos e se não te dedicares aos mesmo estudos.» Mas a rapariga escolheu-o, e, vestindo as mesmas vestes que ele, casaram-se. A partir daí, surgiam sempre juntos em público e iam a todos os lugares um com o outro.”
Diógenes de Laércio, Vidas dos Eminentes Filósofos, VI, 96.

A filosofia dos cínicos era uma filosofia de carácter prático, era um verdadeiro modo de vida em que a principal característica era o desprendimento material e uma aparente imoralidade, visto que a vergonha era vista por eles como uma fraqueza a suprimir. A ruptura do cínico com o mundo era radical, visto que ele rejeita as regras elementares da vida em sociedade e o seu despudor é total. Crates e Hiparquia até fariam amor em público, demonstrando a sua indiferença pelo pudor “público”.
Segundo P. Hadot o cinismo é a “escolha da liberdade, ou da independência total em relação aos desejos fúteis, a recusa do luxo e da vaidade”.
O que encontro de mais próximo com estas figuras apátridas e insólitas, são, por um lado, os ascetas hindus que mendigam actualmente por toda a Índia , nus e totalmente afastados da realidade social. Por outro lado, as comunidades hippies dos anos 60, ou os chamados “freaks” da actualidade ecoam muitos destes valores de “independência” e “despudor social”.
Contudo, Crates e Hiparquia não se limitavam a escandalizar a sociedade da época, a sua escolha era profundamente reflectida e as suas acções apoiadas num raciocínio filosófico nada descabido. Nesse raciocínio, o homem revolta-se, neste caso radicalmente, contra uma sociedade onde a mera aparência e o poder material são tudo. Não é novidade alguma que a história se repete, nem que vivemos numa época onde os antigos “valores” já não são o que eram, e em que a aparência é tudo e em que o poder monetário é a ambição última do homem. Contudo, parece-me que o destino humano não seja assim tão simples, visto que ainda há quem se revolte, de forma mais ou menos escandalosa, contra esta subserviência perante a futilidade última em que consiste uma nota de papel.

Mais informações em:
http://www.ancientlibrary.com/smith-bio/1584.html
http://ancienthistory.suite101.com/article.cfm/hipparchia_the_cynic
http://classicpersuasion.org/pw/diogenes/dlhipparchia.htm

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