breve tempus

momentos na cultura antiga

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Quem foram os culpados pela destruição da biblioteca de Alexandria?

O Eneadáctilo, blogue que desde já recomendo, fez uma pesquisa pela rede em busca dos verdadeiros culpados da destruição da biblioteca de Alexandria. Uma pesquisa muito apreciável, pois o tema é bastante singular. Pelos resumos que fez dos sites, (não fui confirmar todos) a maioria parece apontar Teodósio pela mão de Teófilo ou Júlio César como principais suspeitos do crime.
O Eneadáctilo conclui que os cristãos são os grandes culpados pela destruição da biblioteca e lembra, com alguma razão, outros factos muito pouco confortáveis para os cristãos.
Sem querer fazer juízos, pois não sou juiz, é para mim claro que os cristãos desempenharam um papel muito pouco neutro na preservação da cultura clássica, prova disso é a actual falta de textos de determinados autores, por exemplo o meu amigo Epicuro.
No entanto, a meu ver as generalizações são sempre perigosas e inimigas da verdade. Por exemplo, Santo Agostinho e outros dos chamados “Pais da Igreja” semearam as suas doutrinas cristãs em solo pagão e colheram daí efeitos muito saudáveis e ao mesmo tempo acabaram por preservar a cultura clássica. Outro exemplo é o do papa Leão X que foi um autêntico mecenas da cultura clássica e teve por isso um papel importante na recuperação e reabilitação dos clássicos pagãos. No entanto, outros papas houve que seguiram o caminho oposto. Sisto V transformou as colunas de Trajano e de Antonino em meros pedestais para as estátuas de S. Pedro e S. Paulo e mandou demolir o Septizonium de Séptimo Severo para usar os materiais da construção em outros edifícios.
Na minha opinião, os povos árabes são hoje em dia vistos de forma muito unívoca, visto que, normalmente olhamos apenas os aspectos negativos da sua história e cultura. Mas, tal como os cristãos, os árabes contribuiram positivamente para a evolução científica e até moral do ser humano. Basta conhecer um pouco da história da matemática, da astronomia, da recepção dos textos de Artistóteles ou até da medecina, para perceber o seu imenso contributo para o bem estar da espécie humana. Por outro lado, os árabes, tal como os cristãos, foram capazes de feitos terríveis e inconcebíveis, contribuindo para guerras e sofrimentos absolutamente desnecessários.

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4 Comments:

At 8:34 da tarde, dezembro 21, 2006, Blogger Ricardo disse...

Olá, olá!

Era só para lembrar que há quem diga que os cristãos foram os responsáveis pelo incêndio de Roma durante o principado de Nero. Eu sou um deles :)

 
At 12:06 da manhã, dezembro 22, 2006, Blogger Catellius disse...

Grande Manuel
Obrigado pela menção e recomendação de meu blog. Adicionei este Breve Tempus entre os meus blogs recomendados.

Gostei muito de suas ponderações.
Mas tenho outras a fazer sobre as suas.

As coisas boas do cristianismo estão escritas em azul, as coisas ruins em laranja. Para quem só vê a História com óculos de lentes laranjas (ou daquele papel celofane), os Inquisidores protegiam os hereges, queimavam bonecos no lugar dos "inimigos da Igreja", os santos foram os grandes reformadores do mundo, os cristãos livraram o mundo dos "bárbaros"... Para que eu falar daquilo que todos já sabem, para que usar argumentos que eu mesmo já usei incontáveis vezes? Afinal sou um agnóstico neófito, católico até pouco tempo atrás.

Quero mostrar que, como disse Lord Acton no século XIX, "o poder absoluto corrompe absolutamente". Os cristãos tiveram muito poder temporal nos últimos dois mil anos e, como não poderia deixar de ser, abusaram dele sistematicamente. Foram perdendo importância urrando, rugindo, excomungando, à medida que as democracias promoviam a liberdade, a igualdade, o voto, os direitos humanos.

Concordo que, sob o mesmo Corão os muçulmanos já foram tolerantes, sob a mesma Bíblia os cristãos já foram intolerantes e vice-versa. Mas creio que a maior intolerância veio dos cristãos.

Não sobreviveram cidades de maioria muçulmana na Europa. Na Espanha, Portugal e no sul da Itália só restaram as construções, obras de arte e alguns textos. Os muçulmanos de hoje são imigrantes recentes. A Bósnia é muçulmana porque esteve sob a proteção dos Otomanos até a 1ª Guerra Mundial.

Do outro lado, mesmo após 1200 anos de domínio muçulmano no Egito, Israel, Síria (incluindo Líbano, Jordânia e Iraque) e um pouco menos de tempo na Anatólia (Turquia) e arredores, a maioria das comunidades cristãs foi respeitada e ainda existe, intacta. Antioquia, Éfeso, Capadócia, todo o oeste da Síria e todo o Líbano, Mádaba na Jordânia, e inúmeros outros locais. Não estou contando Jerusalém, Belém, etc. Nestas localidades poucas vezes os peregrinos cristãos foram impedidos de visitar seus locais santos.

Os cristãos perseguiram muçulmanos e judeus até pouquíssimo tempo atrás. O santíssimo Pio IX, o que quase causou nova divisão na Igreja por causa de sua "infalibilidade papal", se referia a eles como "cães". O termo "pérfidos judeus" continuou a ser usado nas Sextas-feiras Santas do Missal Romano após o Holocausto. Finalmente João XXIII retirou a agressão na década de 1960.

Sobre esses "pais da igreja", acho interessante o ódio que devotavam ao sexo oposto. Clemente de Alexandria, o pai grego da Igreja, desprezava as mulheres de tal jeito que afirmou que "a consciência da sua própria natureza deve evocar sentimentos de vergonha nas mulheres". Tertuliano, o pai africano, chamava as mulheres de "porta do Diabo", Orígenes, o patriarca de Alexandria, tinha tal ódio às mulheres e ao sexo que se castrou para atingir a "perfeição cristã". O Patriarca de Constantinopla, São João Crisóstomo (340-407), afirmava que "em meio a todos os animais selvagens não se encontra nenhum mais nocivo do que a mulher". Mas o expoente máximo da misoginia e ódio ao sexo cristãos é o venerado Santo Agostinho, o canonizador de Platão - merecedor dos seus elogios (um pouco ele merece). Ele achava a mulher tão claramente inferior ao homem que se perguntava: "Por que razão a mulher foi sequer criada?". E São Tomás de Aquino, o que canonizou Aristóteles: "O pai tem de ser mais amado que a mãe e merece maior respeito porque sua participação na concepção é ativa e a da mãe simplesmente passiva e material". O que esperar de um Deus que não considera limpo o suficiente vir à Terra como homem a partir do ato sexual de um casal heterossexual disposto a procriar? A virgindade de Maria reforça o quão "suja" é a mulher que não consegue cumprir sua função reprodutora sem o pecaminoso sexo... Claro que a misoginia é comum à todas as religiões, incluindo o budismo. Lutero disse "Não há manto nem saia que pior assente à mulher ou donzela que o querer ser sábia". E Buda: "A mulher é má. Cada vez que se lhe apresente oportunidade, toda mulher pecará". O Velho Testamento é pródigo em agressões à mulher. São Paulo também não se sai melhor, apesar de dizer que o homem deve respeitá-la (Na prática, oprima; na teoria, somos todos iguais).

Por fim, não elogiaria muito Leão X porque aquele mecenato envolvia culto à sua personalidade, vide o fabuloso retrato de Rafaello. E seu desejo de "patrocinar" as artes era tão grande que para erigir a atual Basílica de São Pedro vendeu a alma ao Diabo, cobrou pelas indulgências, criou a gota d'água que permitiu a Reforma Protestante.

Mas não podemos cair em generalizações, concordo. Chega de maniqueísmo. Chega de céu e chega de inferno...

Um grande abraço!

 
At 11:05 da manhã, dezembro 22, 2006, Blogger Manuel disse...

"Chega de céu e chega de inferno..."

Meu caro Eneadáctilo, deixou bem claras as suas posições sobre a igreja católica.
Como já afirmei em cima, não sou juiz, e por isso não julgo ninguém. Mas factos são factos e contra isso o que podemos fazer é tentar não cair repetidamente nos mesmos erros.
Na minha humilde opinião, a história da humanidade é um processo muito complexo que envolve inúmeros factores e por isso tudo quanto se aproxima de uma "visão unilateral" merece algum cuidado da minha parte.
Mas como diz: "Chega de maniqueísmo."...

Um abraço para si também,
e já agora, bom ano novo!

 
At 8:22 da tarde, dezembro 29, 2006, Anonymous André disse...

Li o texto sobre Alexandria no Eneadáctilo (o seu site também é muito bom, por falar nisso). Interessante, legal. Sou viciado em história romana e bizantina, e posso dizer uma coisa: Teodósio provavelmente não queimava livros. Ele não era esse tipo. Cometeu suas atrocidades, claro, mas nada de mais na escala "imperador bizantino" de atrocidades. Bom, todo o resto da história é muito interessante mesmo.

 

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