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momentos na cultura antiga

quarta-feira, novembro 29, 2006

Uma curiosa viagem marítima no século V


Com este texto espero mostrar-vos mais uma peça importante para o nosso entendimento da vida no quotidiano na antiguidade. Fica aqui um relato curioso de Sinésio, um aristocrata grego que realizou esta viagem em 404 da nossa era, desde Alexandria até Cirene, ao longo da costa egípcia e líbia. O texto é especialmente curioso porque nos oferece um relato vivo e espirituoso das experiências do autor durante a viagem, feita num dos muitos barcos que transitavam pelo mediterrâneo.


"O nosso armador estava a ser esmagado até à morte por uma dívida pesada. A tripulação era composta por doze homens, com o capitão perfazia treze. Mais de metade eram judeus, incluindo o capitão, uma raça de inconformados que estão convencidos de que a piedade consiste em matar o maior número de gregos possível. Os outros eram rapazes do campo, que até ao ano passado nunca tinham tocado num remo. A única coisa que tinham em comum era todos terem um defeito físico. Assim, enquanto não corríamos perigo, eles faziam piadas sobre isto e tratavam-se uns aos outros pelas suas desgraças em vez de pelos seus verdadeiros nomes: Aleijado, Burro, Maneta, Vesgo; cada um deles tinha a sua alcunha. Tudo isto nos divertia imenso. Mas, em tempo de necessidade, não tinha piada nenhuma, pois, nós tínhamos razão para gemer sobre estes defeitos, visto que havia mais de cinquenta passageiros, sendo cerca de um terço mulheres e na maioria jovens e bonitas. Mas não nos invejem, éramos separados por uma cortina, grande e forte, um pedaço de vela que se tinha recentemente rasgado, uma verdadeira muralha de Semiramis aos olhos de homens decentes. Mas até o próprio Príapo seria decente se tivesse sido passageiro no barco do senhor Amaranto. Não havia um momento em que ele nos deixasse descansar do medo de algum perigo mortal. Para começar, depois de passar o cabo do templo de Posídon, decidiu ir a direito para Taposiris com a vela toda enfunada e tentar a sorte na Cilla, aquela que tanto nos assusta nos livros de contos. Quando ele se apercebeu disto, a um cabelo do desastre, gritou, e lá conseguimos forçá-lo a desistir da batalha contra as rochas. Então, mudando a rota do navio, como se tivesse mudado de ideias, lá foi ele para o mar aberto, lutando contra o mar como podia, e mais tarde ajudado por uma brisa suave do Sul.”
Há noite o vento começou a soprar e por volta da meia-noite entraram numa tempestade:

“Os homem gemiam, as mulheres guinchavam, todos rogavam a Deus, gritavam alto, lembrando os seus mais queridos. Apenas Amaranto estava bem disposto, pensando que se iria safar dos seus credores… Notei que os soldados (um grande número de passageiros era constituído por cavaleiros árabes) tinham puxado das suas espadas. Perguntei porquê e eles responderam que preferiam libertar as suas almas para o ar no convés do barco do que afogá-las no mar. Verdadeiros descendentes de Homero, pensei, e aprovei a ideia. Então alguém disse que todos os que tivessem algum ouro o deviam pendurá-lo ao pescoço. Os que tinham, fizeram-no, tanto ouro como qualquer coisa que tivesse valor. As mulheres não só colocaram todas as suas jóias, mas também distribuíram fios a todos o que precisassem. Esta é uma tradição honrada pelo tempo, e a sua razão é a seguinte: deve-se prover o corpo de alguém perdido no mar com dinheiro para pagar o funeral, para que se alguém o encontrar, lucrando com isso, não se importe de dar alguma atenção ao cadáver… O barco estava descontrolado porque não conseguíamos recolher a vela. Repetidamente agarrávamos as cordas mas desistíamos porque ficavam presas nos calços. Começámos a recear, secretamente, que mesmo que escapássemos da violência do mar, chegaríamos a terra durante a noite nesta condição desesperada. Mas o dia nasceu antes disso e olhámos o sol, com um prazer que nunca tínhamos sentido. Com o chegar do calor do dia o vento acalmou e as cordas secaram, e assim conseguimos usá-las para recolher a vela. No entanto, substitui-la por uma vela mais resistente para tempestades era impossível, pois esta tinha ficado no prego. Apanhámos a vela como as dobras de uma túnica e daí por quatro horas, nós, que já esperávamos a morte, desembarcámos num sítio deserto e remoto onde não havia nada à volta. O barco oscilava em todas as direcções, pois estava seguro apenas por uma âncora, a segunda âncora tinha sido vendida e o senhor Amaranto não possuía uma terceira. Quando colocámos os pés em terra, abraçámo-la como se fosse a nossa mãe.”


Traduzi este excerto do livro de Lionel Casson, Travel in the ancient world. Uma excelente obra para se conhecer detalhadamente como se viajava na antiguidade.

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