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momentos na cultura antiga

quarta-feira, novembro 22, 2006

Séneca, Epicuro e a morte

Séneca tinha uma concepção da morte admirável, uma visão perturbantemente actual, por um lado devido à problemática da eutanásia, e por outro, devido à poderosíssima mensagem de dignidade humana que veicula. Mas se a morte era insignificante para os estóicos, vejamos como a olhavam os epicuristas.

“Acostuma-te a pensar que a morte não é nada para nós, porque todo o bem e todo o mal residem na sensação. Assim, um entendimento correcto deste facto torna a vida mortal deliciosa, visto que não impõe um tempo infinito, pelo contrário afasta o desejo de imortalidade. [125] Porque nada há de terrível na vida para quem compreende que não há nada de terrível em não viver. (…) A morte, o mais tenebroso dos males, não é nada para nós, porque enquanto nós existimos, a morte não existe e quando a morte está presente nós estamos ausentes.”

Epicuro, Carta a Meneceu 124-125.

Confesso que se o Jardim ainda tivesse as portas abertas, eu com certeza o visitaria muitas vezes. O ápeiros cronos, ou seja, o tempo infinito não me deslumbra, apesar de compreender perfeitamente a sua imensa capacidade sedutora. A sedução da imortalidade da alma está tão presente no ser humano que o levou a criar as obras de arte mais belas, desde Miguel Ângelo a Gaudí, e por isso não me parece que seja uma ideia a desprezar, muito pelo contrário, mas sim uma ideia a apreciar como admiramos a poesia que há na vida.
Não resisto a fazer um breve apontamento sobre a linguagem de Epicuro. Quando li pela primeira vez Epicuro em grego, espantou-me a simplicidade da língua e a forma directa e consistente como aborda temas tão colossais como a morte. A limpidez e clareza do vocabulário é surpreendente, garanto-vos. No entanto esta simplicidade não é inocente nem ingénua, ela acontece porque Epicuro queria chegar a toda gente e isso só é possível se qualquer pessoa entender facilmente o discurso do filósofo.

Imagem: Thomasz Kostecki, Gaudi, 1996

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3 Comments:

At 11:10 da manhã, novembro 23, 2006, Blogger Xantipa disse...

A morte, pelo menos para Séneca, não era insignificante...
;)
Aliás, o que diz Epicuro adapta-se perfeitamente ao que diz Séneca (que, tantas vezes, cita Epicuro).
:)

 
At 12:03 da tarde, novembro 23, 2006, Blogger Manuel disse...

Quando escrevi "insignificante" provavelmente não escolhi a palavra certa. Será insignificante não no sentido de "menor" ou "sem importância", mas num sentido "banal", "comum" e não "vulgar" ou "corriqueiro". Espero que assim se entenda melhor.

Sim, sem dúvida que Séneca colhe muitos frutos de Epicuro, mas no tema da morte parece-me, talvez eu esteja errado, que a visão epicurista é mais extrema na "desdramatização" da morte, relativamente à visão estoicista que a valoriza como um acto eticamente relevante.

 
At 8:25 da tarde, dezembro 29, 2006, Anonymous André disse...

Ótimo texto. Melhor ainda ler o ensaio sobre a morte escrito por Montaigne. Até porque tem muitas citações de todos esses caras aí... um belo resumo da coisa.

 

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