breve tempus

momentos na cultura antiga

sábado, novembro 04, 2006

O silêncio do mármore ou o ruído do mercado?


Quando se imagina a vida no quotidiano da Roma antiga tem-se tendência a imaginar grandes edifícios de mármore branco, limpos e puros, onde imperadores e generais se exibem em armaduras douradas para uma multidão de pessoas bem vestidas e bem penteadas. Esta imagem é a que nos foi oferecida pela maior parte dos filmes de Hollywood dos meados do século XX, no entanto, a realidade não era bem esta. Actualmente, os realizadores de Hollywood abandonaram a brancura impoluta do mármore para abraçarem o sangue e o ruído da multidão do coliseu. O gladiador tornou-se a figura em realce e as guerras épicas voltaram aos ecrãs, agora com actores menos penteados e mais sujos de sangue, mas bem mais reais. Contudo o destaque de Hollywood vai todo para o sangue e para a violência, quer seja a das arenas e coliseus ou a das batalhas reais. Ficamos com a ideia de que a vida dos romanos, não passava de duas coisas: ver combates no coliseu, ou então, guerrear contra outros romanos ou contra bárbaros invasores.
A violência era uma característica incontornável da sociedade romana, por sinal tal como da nossa sociedade actual. É verdade que os gladiadores eram admirados pelos cidadãos e alguns vistos como heróis, no entanto a vida em Roma tinha algo mais do que isso. E é justamente isso que pretendo deixar claro neste excerto que traduzi do brilhante livro de Jérôme Carcopino, La Vie quotidienne a Rome:

Durante o dia reinava uma intensa animação, um acotovelar ofegante e uma algazarra infernal. As "tabernae" mal abriam enchiam de gente, estravasando os produtos para a rua. Aqui, barbeiros faziam a barba aos clientes no meio da passagem. Aí andavam os vendedores ambulantes da Transtiberina negociando pacotes de fósforos de enxofre e quinquilharias de vidro. Mais à frente, o dono de uma casa de pasto, rouco de gritar a ouvidos moucos, exibia as suas salsichas, chiando de quente, na frigideira. Professores e alunos gritavam até à rouquidão, uns para os outros, ao ar livre. De um lado, um cambista retinia as suas moedas com a face de Nero numa mesa suja, de outro um ourives malhava com a sua marreta numa pedra já gasta pelo uso. Nos cruzamentos reunia-se um círculo de transeuntes à volta de um domador de cobras. Por todo o lado ressoavam os martelos dos funileiros e as trémulas vozes dos pedintes, invocando o nome de Bellona ou contando as suas aventuras e desventuras para tocar o coração dos transeuntes. O fluxo de pedestres era interminável e os obstáculos no seu caminho não impediam que rapidamente a corrente se transforma-se em torrente. Ao sol ou à sombra uma multidão de gente ia e vinha, gritava, empurrava, caminhando por vias apertadas…*

Felizmente que a visão do séc. XXI da Roma antiga parece estar cada vez mais perto da realidade, e gostei muito de ver na RTP2 a série Roma, uma parceria da BBC com a HBO. Nessa série, não deixa de haver gladiadores e batalhas sangrentas, no entanto, o destaque é dado a dois soldados “rasos” da legião de César e às suas vidas no seio da camada popular que constituía a esmagadora maioria dos romanos. Se ainda não viram a série, vejam-na, o DVD está à venda nos locais do costume.

*pp. 48-49 da versão inglesa da Yale University Press.

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4 Comments:

At 8:32 da tarde, novembro 04, 2006, Blogger Esfinge disse...

bem vindo ao meu blogueiro =) e, by the way, os meus parabéns pelo tema a que dedicas o teu blog!

Esfinge ***

 
At 4:02 da tarde, novembro 05, 2006, Blogger Nárnia disse...

Também estou a gostar muito do teu blog, é uma prova que uma vez em clássicas, sempre em clássicas.

Vale, amice mei.

 
At 5:14 da tarde, novembro 05, 2006, Blogger Manuel disse...

Fico muito contente que gostem do blog. :)

E o que dizes tem muito de verdade Nárnia.

 
At 7:34 da tarde, maio 24, 2013, Anonymous Anónimo disse...

Excelentes textos, o conhecimento e o saber nunca ocuparam lugar, é sempre bom saber mais. Parabéns pelo blog.

 

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