breve tempus

momentos na cultura antiga

sexta-feira, novembro 10, 2006

Jogos


Li aqui, que o estado pretende oferecer aos nossos nadadores as seguintes quantias: 800 € por mês se o nadador for capaz de atingir os vinte primeiros lugares do ranking mundial; 500 € para um bom lugar nos campeonatos do mundo (>16º); 300 € para um bom lugar nos europeus (>14º); 150 € para uma perspectiva de participação nos Jogos Olímpicos de Pequim.
Estas quantias até podem parecer avultadas a muitos “Tio Patinhas” que por aí formigam, mas mesmo a esses, peço que me acompanhem numa reflexão extremamente anacrónica, mas muito curiosa.
Nos Jogos Olímpicos da antiguidade apenas os atletas vencedores eram “olímpicos”, ao contrário de hoje em dia em que o adjectivo “olímpico” é aplicado a qualquer participante nos Jogos. Quanto aos outros, segundos, terceiros ou últimos, esses não eram ninguém. Um vencedor olímpico era considerado como um semi-deus. Cada cidade recebia o seu vencedor com celebrações que incluíam honras públicas de todo o tipo, mas sempre de uma grandeza impressionante. A sua vitória significava que um Deus estaria ao lado do atleta, o que lhe dava para o resto da vida um estatuto especial no seio da sua cidade. Além dos prémios monetários que recebiam mal regressavam a casa, os atletas eram premiados com várias ofertas, que podiam ir até à construção de uma estátua na cidade ou à isenção de pagar impostos para o resto da vida, ou ainda a oferta de refeições grátis ad aeternum, sim, daquelas grátis, mesmo grátis…
Outra recompensa pela vitória olímpica consistia na celebração através de um epinício, uma composição poética e musical que proclamava o vencedor. Chegaram até nós várias odes deste tipo escritas por Píndaro.
Bem sabemos que hoje em dia os jogadores de futebol têm direito a uma semi-isenção aos impostos, e que como referi em cima, oferecemos incentivos pecuniários aos nadadores que ficam nos lugares cimeiros. Contudo há algo aqui que me parece deslocado e quase grotesco.
Tenhamos em conta que um nadador para conseguir estar presente nos J.O. terá que treinar seis vezes por semana mais de três horas por dia. No caso de Portugal já sabemos que nenhum deles será vencedor, mas ainda assim penso que merecem o nosso respeito e admiração.
Tudo isto para concluir que 150 € para uma esperança olímpica parece-me pouco, mesmo muito pouco, provavelmente nem deve chegar para pagar as quotas ao clube onde estão inscritos e os transportes para a piscina e para as provas sazonais. Quanto aos 800 €, servem apenas como incentivo a quem conseguir (hipoteticamente) lá chegar, porque segundo soube não existem nadadores portugueses a esse nível.
Lembremo-nos agora dos desportos milionários como o golfe, o ténis, o futebol, e outros em que tenho sérias dúvidas que seja necessário treinar com o esforço e o sacrifício dos “verdadeiros” desportos como o atletismo, a natação e outras modalidades onde o esforço físico obriga a uma dedicação muito real. Esta é a minha opinião, mas cada um tem o seu gosto.
Na verdade, nunca me hão de convencer que o feito de conseguir enfiar uma bola num buraco com um taco, ou até mesmo uma bola numa baliza com o pé, vale as somas exorbitantes que esses “atletas” recebem.
Se nos parece, na nossa visão ocidental/cristã, que os antigos gregos pecavam pelo seu desprezo dos não vencedores, porque é que fomentamos os desportos milionários e desprezamos os seus parentes mais pobres?
A resposta poderá estar, em parte, no facto que valorizamos o espectáculo e o dinheiro que daí resulta, enquanto que os antigos gregos valorizavam, mais do que nós o fazemos, o sacrifício e a vitória. No entanto, continuo sem perceber o que há de espectacular em enfiar uma bola num buraco com um taco...

P.S.
Se gostarem de natação passem pelo Beba Água, um blog de nadadores para nadadores.