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momentos na cultura antiga

quarta-feira, novembro 01, 2006

Hiparquia, a filósofa grega



Enquanto realizava as minhas leituras sobre filosofia antiga, deparei-me com o nome desta mulher, Hiparquia, fiquei curioso e fui consultar alguma bibliografia sobre ela e a curiosidade em vez de diminuir, antes aumentou. Descobri que Hiparquia foi uma filósofa, que não pertenceu a nenhuma escola filosófica, mas aderiu, por motivos singulares, ao modo de vida dos Cínicos.
Na antiguidade as mulheres tinham um estatuto claramente inferior aos homens, sobretudo na Grécia antiga, onde não eram consideradas cidadãs de direito e todas as actividades socialmente activas eram-lhes negadas, exceptuando as actividades religiosas. Por isso o meu interesse nesta mulher que seguiu o caminho da filosofia e que se terá notabilizado pelos seus tratados filosóficos, mas infelizmente nenhum chegou até nós.
Hiparquia, pertencente a uma família abastada da Trácia, foi mulher de Crates, um eminente Cínico de Tebas. Confirmando a sua importância na história da filosofia antiga, Diógenes de Laércio dedica-lhe um capítulo descrevendo muito brevemente a sua vida, realçando o momento da sua união com Crates:
“Ela apaixonou-se tanto por Crates como pelas suas doutrinas filosóficas, e não podia ser desviada do seu amor por ele, nem pela riqueza, nem pela linhagem ou beleza de qualquer dos seus pretendentes, pois Crates era tudo para ela. Chegou ao ponto de ameaçar os pais com o suicídio se não a deixassem casar com ele. Crates, tendo-lhe sido pedido que a dissuadisse da sua resolução, fez o que pode, e por fim, visto que não a conseguia persuadir, levantou-se e colocou todos os seus escassos pertences à frente dela e disse-lhe: «Este é o noivo que escolhes, e esta é toda a sua propriedade, pensa nisto, porque não poderás ser sua parceira se não partilhares com ele os seus hábitos e se não te dedicares aos mesmo estudos.» Mas a rapariga escolheu-o, e, vestindo as mesmas vestes que ele, casaram-se. A partir daí, surgiam sempre juntos em público e iam a todos os lugares um com o outro.”
Diógenes de Laércio, Vidas dos Eminentes Filósofos, VI, 96.

A filosofia dos cínicos era uma filosofia de carácter prático, era um verdadeiro modo de vida em que a principal característica era o desprendimento material e uma aparente imoralidade, visto que a vergonha era vista por eles como uma fraqueza a suprimir. A ruptura do cínico com o mundo era radical, visto que ele rejeita as regras elementares da vida em sociedade e o seu despudor é total. Crates e Hiparquia até fariam amor em público, demonstrando a sua indiferença pelo pudor “público”.
Segundo P. Hadot o cinismo é a “escolha da liberdade, ou da independência total em relação aos desejos fúteis, a recusa do luxo e da vaidade”.
O que encontro de mais próximo com estas figuras apátridas e insólitas, são, por um lado, os ascetas hindus que mendigam actualmente por toda a Índia , nus e totalmente afastados da realidade social. Por outro lado, as comunidades hippies dos anos 60, ou os chamados “freaks” da actualidade ecoam muitos destes valores de “independência” e “despudor social”.
Contudo, Crates e Hiparquia não se limitavam a escandalizar a sociedade da época, a sua escolha era profundamente reflectida e as suas acções apoiadas num raciocínio filosófico nada descabido. Nesse raciocínio, o homem revolta-se, neste caso radicalmente, contra uma sociedade onde a mera aparência e o poder material são tudo. Não é novidade alguma que a história se repete, nem que vivemos numa época onde os antigos “valores” já não são o que eram, e em que a aparência é tudo e em que o poder monetário é a ambição última do homem. Contudo, parece-me que o destino humano não seja assim tão simples, visto que ainda há quem se revolte, de forma mais ou menos escandalosa, contra esta subserviência perante a futilidade última em que consiste uma nota de papel.

Mais informações em:
http://www.ancientlibrary.com/smith-bio/1584.html
http://ancienthistory.suite101.com/article.cfm/hipparchia_the_cynic
http://classicpersuasion.org/pw/diogenes/dlhipparchia.htm

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1 Comments:

At 2:55 da tarde, novembro 03, 2006, Anonymous Anónimo disse...

Pois gostei bastante e, sem saberes, respondeste à minha solicitação de há dias: "diz um nome de uma mulher filósofa". E esta foi uma filósofa especial...

 

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