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momentos na cultura antiga

segunda-feira, novembro 13, 2006

Etimologia para descontrair II - O poeta fabricante


Quando pensamos num poeta indeterminado, vem-nos à cabeça alguém que dedica a sua vida às letras, mas para muitos é difícil abandonar totalmente o estigma do poeta preguiçoso que quer ganhar a vida sem fazer nada. Contudo, a etimologia da palavra «poeta» pode ajudar a limpar este estigma.
A palavra «poeta» provem quase directamente do grego, pois, passou pelo latim, mas apenas como um empréstimo do grego. A forma grega era poietés, muito semelhante ao “nosso” «poeta». A raiz *poie- é a mesma que encontramos no verbo grego poiéo, cujo significado primário é fabricar, compor ou fazer. Será que afinal o poeta sempre faz alguma coisa?
Continuando, outros significados de poietés eram fabricante, criador e legislador, ou seja, aquele que faz alguma coisa. Ao mesmo tempo, poiéma, o nosso «poema», significava “o objecto fabricado”. Assim, apercebemo-nos que os gregos davam ao poeta uma dimensão criadora mais concreta e prática do que a actual. O poeta era o homem que fabricava mitos, dramas e realidades com a matéria-prima mais humana que tinha à disposição, a linguagem. Esta ligação ao acto de fabricar, num sentido concreto, perdeu-se com o passar do tempo. Todavia a forma mantém-se quase igual desde os últimos três mil anos, o que é um facto assinalável.

Pintura: Lanfranco, Il poeta fossile (1954).

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5 Comments:

At 9:55 da tarde, novembro 15, 2006, Anonymous mp disse...

Pois é. Mas também foi um grego, Platão, que expulsou o Poeta da sua cidade ideal (A REPÚBLICA, Diálogos I, Livro X): "(...) eis-nos bem fundamentados para não o [o poeta]recebermos num Estado que deve ser regido por leis sábias, visto que desperta, alimenta e fortalece o elemento mau da alma e arruína, deste modo, o elemento racional (...)".
O primado da razão, aliás, tem-se imposto ao longo dos tempos, ainda que combatido, intermitentemente, ora pelos românticos, ora pela neurologia (veja-se o ERRO DE DESCARTES, de A. Damásio).
As sociedades dão-se muito mal com a emoção, não suportam os poetas, porque estes trabalham com a vulnerabilidade humana e isso assusta aqueles que nunca erram e raramente têm dúvidas.
Presentemente, a luta emoção-razão tem novo desenvolvimento, na sociedade portuguesa, com a polémica "eduqueses - anti-eduqueses" (a designação é pirosa, mas nasceu da boca de um ex-ministro, pelo que deve ser muito douta). Os anti-duqueses, também autodenominados anti-rousseanos, quais neo-platões, desejam expulsar a emoção da sua sociedade ideal (dirão como Platão dizia a Gláucon: "a razão obrigava-nos a isso"). Como se a vida (do homem, do animal, do vegetal...) se esgotasse na razão.
Como o "ser humano" é pequenino...

 
At 9:59 da tarde, novembro 15, 2006, Anonymous mp disse...

Ah! Esqueci-me de dizer que, apesar do meu comentário, gostei da sua Etimologia II.

 
At 12:17 da tarde, novembro 16, 2006, Blogger Manuel disse...

Ainda bem que gostou. E fez muito bem em levantar a questão de Platão, pôs-me a pensar em determinadas questões muito interessantes.
Mas para já, fica aqui uma nota que me parece importante. Convém relembrar que Platão propunha uma ideia original de filosofia e que na sua época a predominância da poesia sobre a filosofia era esmagadora. Só para citar o caso da tragédia ática, apenas os Jogos Olímpicos superavam as Grandes Dionisias em termos de espectadores e mesmo isto não é certo. Enquanto que a filosofia não tinha tantos seguidores como temos tendência a pensar...
Também é importante relembrar que a noção de poesia de Platão era extremamente alargada e estaria muito mais perto daquilo que hoje chamaríamos "show business" e menos de Baudelaire ou Pessoa.
Mas voltarei a estas questões, pois você deixou-me com "água na boca".

8)

 
At 7:21 da tarde, novembro 16, 2006, Anonymous mp disse...

Ok.
É certo que Platão não repudiou toda a Poesia, admitindo a obra de Homero e de outros poetas trágicos. Tolerava, no seu ideal de cidade, a "poesia conforme" e repudiava a "poesia imitativa", entendendo-a como irracional. Era, como escrevi antes, a recusa da emoção e - digo eu - do espírito livre. E é precisamente essa interdição de liberdade que assusta no discurso demasiado racional da tecnocracia.
Por outro lado, tudo isso é muito artificial, porque, na minha óptica, a literatura (poesia ou prosa) mais interessante é aquela em que a fronteira com a filosofia se desvanece, em que encontramos uma razão mais emotiva ou uma emoção mais racionalizada. Estou a pensar em Pessoa e em Vergílio Ferreira, por exemplo.
As fronteiras são sempre muito questionáveis e oscilantes, pelo que a luta razão-emoção, romantismo-realismo e a sua nova versão (volto a dizer, pirosa) duqueses - anti-duqueses será mais um exercício mental, que pode, no entanto, ser aproveitado para destruir valores caros à conquista da nossa humanidade.
Haverá, contudo, sempre uma espécie de "terra-de-ninguém", onde as diferentes posições se tocarão ou até, em certa medida, se confundirão. Quanto a mim, será nessa ausência de propriedade ou de titularidade, nesse espaço de liberdade, que o Homem crescerá.

 
At 10:46 da tarde, novembro 16, 2006, Blogger Manuel disse...

Não estou dentro dos pormenores desse conflito duqueses - anti-duqueses,(sem dúvida muito piroso) mas deixo-lhe apenas duas frases:

No conflito razão-emoção, a humanidade não terá nada a ganhar com a vitória de qualquer pólo.
Ganhará sim com um equilíbrio proporcional e adequado das duas partes que são, como todos sabemos, as raízes nuas do ser humano.

 

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