breve tempus

momentos na cultura antiga

segunda-feira, novembro 20, 2006

Dioniso II

Começo a cantar Dioniso de grito retumbante, o coroado de marfim,
o esplêndido filho de Zeus e da célebre Sémele.
Aquele que as ninfas de belas tranças receberam do pai senhor,
acolhendo-o no seu seio, e criaram carinhosamente nos vales do Niso.
Com a graça de Zeus, aí cresceu, numa gruta fragrante,
para ser contado entre os imortais.
Mas quando as Deusas criaram o muito cantado Deus, ele
começou a vaguear pelos regatos repletos de árvores coberto de louro e hera,
as ninfas seguindo-o como líder e o seu clamor invadindo a imensa floresta.

Salve a ti, Dioniso, rico em uvas,
concede-nos a alegria do regresso da estação
e que as estações se repitam por muitos anos.


Uma tradução possível para o hino homérico XXVI dedicado a Dioniso, rico em uvas. Espero que Dioniso me perdoe, fiz o que pude...
Os hinos homéricos são uma colecção de textos anónimos que datam provavelmente dos séculos VII a VI a.C. Evocam os deuses do panteão olímpico e algumas divindades menores. Os antigos atribuíam estes textos ao próprio Homero, daí o nome, mas já os exegetas alexandrinos punham em causa a sua autoria. Os autores eram muito verosimilmente rapsodos. Estes textos agradam-me particularmente pela sua simplicidade estética e ao mesmo tempo pela sua capacidade poética. Por isso, é possível que aqui apareçam mais vezes.
Deixo-vos em seguida com um excerto que me parece muito pertinente para o nosso entendimento das várias faces de Dioniso.

“… o êxtase dionisíaco não é algo que é alcançado por um indivíduo só, mas um fenómeno de massas que se propaga de modo quase contagioso. Em termos mitológicos, isto significa que o deus está constantemente rodeado do enxame e do frenesim dos seus adoradores e adoradoras. Quem se entrega a este deus arrisca-se a perder a sua identidade social e a «ser louco». Isto é ao mesmo tempo divino e terapêutico. O sinal exterior e o instrumento da metamorfose provocada pelo deus é a máscara. A fusão entre o deus e o seu adorador que ocorre durante esta metamorfose não tem paralelo no resto da religião grega. «Bacchos» é o nome tanto de um como de outro.”

Excerto de: Burkert, Walter, Religião grega na época clássica e arcaica, Lisboa, F. C. Gulbenkian, 1993, p.318.

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3 Comments:

At 5:27 da tarde, novembro 21, 2006, Blogger MGReis disse...

Ola Manuel

Mais um rico postal. Gostei muito!
Não conheço o original do hino homérico, mas o seu texto está delicioso. A citação não podia ser melhor.

E quando é que vem o próximo?

Abraço
Miguel

PS: O Manuel desculpe, mas não pude evitar umas gargalhadas sobre um seu comentário na Xantipa. Então a sua cara-metade exila-lhe os livros para terras recônditas? ;-)

 
At 11:29 da manhã, novembro 22, 2006, Blogger Manuel disse...

Olá Miguel.

Ainda bem que gostou.
Pois é, de vez em quando lá vai uma "catrefada" de livros desterrados para o Alentejo, na verdade é para darem lugar a outros.

Abraço

 
At 4:26 da tarde, novembro 22, 2006, Blogger MGReis disse...

Ola Manuel

Bom, se vão para o Alentejo, não vão mal, pois é uma linda terra de que eu pessoalmente gosto muito.

Mas, na verdade, eu também sou obrigado a fazer o mesmo. Cada vez que regresso a Portugal levo comigo uma carrada deles. O que é pena, mas não há nada a fazer.

Abraço
Manuel

 

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