breve tempus

momentos na cultura antiga

segunda-feira, novembro 06, 2006

Dioniso I

Um dos mais fascinantes deuses da antiguidade sempre foi, para mim, Dioniso. A sua importância prende-se sobretudo à sua estreita ligação com a sublime forma de arte que conhecemos na tragédia ática. A essência da tragédia, para mim, tem muito que ver com a ambiência religiosa que rodeava a Grande Dionísia, normalmente realizada em Março, quando a Primavera inicia a renovação do ciclo da vida. Mas a esta ligação voltarei noutro momento. Penso que irei elaborar uma série de textos sobre Dioniso, porque muitas são as suas facetas e reflexões na cultura helénica. Mas para já queria deixar o elenco dessas diferentes faces da mesma divindade:

Deus do vinho, que ensinou aos mortais a arte de extrair o doce vinho das uvas.
Deus da natureza selvagem, associado com o crescimento da vegetação e com o ciclo eterno das estações do ano; ainda nesta perspectiva está associado com o poder do Deus na sexualidade masculina.
Deus da possessão extática, caracterizado pelo comportamento alucinado das ménades.
Deus da dança, acompanhado por sátiros e ninfas.
Deus da máscara e do disfarce, obviamente muito significativo para o drama ático.
Deus da iniciação mística, que oferece aos seus seguidores a possibilidade de bem-aventurança numa vida depois da morte.

Segundo o Professor José Pedro Serra, uma das principais características de Dioniso, na sua relação com a tragédia ática, é a sua importância na definição de uma “alteridade do Eu”. O que se prende com uma reflexão sobre a máscara na identidade do actor que a usa. Dioniso será o Deus estrangeiro, que vem de fora, trazendo consigo essa reflexão, ao mesmo tempo subtil e profundíssima, sobre a identidade do outro que no fundo é um outro Eu.
Apenas um apontamento de cariz etimológico sobre a possessão extáctica, do grego ekstatikós, «aquele que está fora de si». Se analisarmos a palavra mais de perto temos ek, que significa «estar fora, afastado» e statikos que vem da raiz *sta-, de onde também provém o verbo latino sto, mais familiar no nosso português em «estou». Portanto, ek + statikos, «aquele que está fora». Mais um contributo para o afastamento do Eu de si próprio, numa cedência ao que temos de mais profundo em nós, esse outro Eu que dança, arranca as ervas com mãos do chão, apanha e dilacera pequenos animais selvagens e que come a sua carne crua e ensanguentada. As ménades mais não são do que um oposto total ao homem do lógos, da razão. Agora junte-se a este facto, a ideia de que Dioniso está em ligação directa com a própria essência da pólis, através do seu culto e das representações da tragédia. Essa mesma pólis conhece, exactamente na mesma época, Sócrates o mais “puro” homem-lógos que a humanidade concebeu.
Espero que o que escrevi seja compreensível para todos, mas confesso que esta é uma questão extremamente complexa para mim e que não posso deixar de estremecer, ao reflectir que esta aparente antinomia entre loucura e razão ainda terá muito a dizer na história da humanidade.

Fontes:
Easterling, P. E., “A show for Dionysus”, in The Cambridge Companion to Greek Tragedy.
Oxford Companion to Classical Literature.
e a “magistral” aula do professor José Pedro Serra sobre tragédia.

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4 Comments:

At 5:22 da tarde, novembro 07, 2006, Blogger Nilson Barcelli disse...

Olá
Vi que tinha uma visita tua e, ao chegar aqui, vi que colocaste o meu link.
Obrigado pela tura referência.
Pouco sei da história da Grécia antiga, helénica, deuses, etc. Mas estes teus textos, que estão bem escritos (vi que era um teu segundo objectivo), vale a pena serem lidos pelo conjunto de informações que contêm.
Gostei do teu blog. Parabéns pela qualidade.
Logo que possa retribuirei o link.
Um abraço.

 
At 5:26 da tarde, novembro 11, 2006, Blogger MGReis disse...

Olá

Sê bem vindo à comunidade blogueira.
É um prazer ler os teus posts, sobre um tema que muito me interessa, a Grécia antiga e os romanos. A qualidade da escrita é deliciosa. Parabéns.

Este post em particular achei lapidar. Concordo contigo no que afirmas sobre a antinomia loucura razão.

Abraço
M

 
At 12:51 da tarde, novembro 12, 2006, Blogger Manuel disse...

Obrigado pelas suas encorajadoras palavras.

 
At 1:28 da tarde, novembro 12, 2006, Blogger MGReis disse...

Ola Manuel

Obrigado pelo comentário (lapidar!) e pelo link.
Como disse acima, é um prazer ler os teus posts. Cá continuarei a vir.
Aparece pelo meu blog sempre que quiseres, és sempre bem vindo.

Um Abraço
M

 

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