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sexta-feira, novembro 17, 2006

Alcibíades - Juventude






"Ésquilo: Não deves criar uma cria de leão na cidade, mas se alguém o fizer habituem-se aos seus costumes" Aristófanes, Rãs v. 1427.


Alcibíades foi uma personagem histórica extremamente polémica, no sentido etimológico da palavra “polémico”, ou seja do grego pólemos – «guerra», pois toda a vida esteve em guerra contra espartanos, persas, atenienses e até mesmo contra si próprio.
Este homem teve Péricles como tutor, combateu e estudou ao lado de Sócrates, comandou a frota Ateniense, foi amante da mulher do rei dos Espartanos e braço direito do sátrapa da Pérsia. Estes são apenas alguns acontecimentos de uma vida curta, Alcíbiades morreu aproximadamente com quarenta e seis anos, mas cheia de incidentes. Ainda hoje, Alcíbiades divide os historiadores sobre as suas verdadeiras intenções. Seria movido pelo tão helénico amor à glória? Ou era apenas um miserável traidor sem escrúpulos? Será que não aprendeu nada com Sócrates?
Um facto ninguém poderá negar, Alcibíades era um homem onde a pathos, a paixão, muitas vezes se sobrepunha à logos, a razão. Não posso deixar de admirar com um sorriso nos lábios a vida agitada deste homem, apesar de a observar à distância de quase três milénios. Acho surpreendente que o romance ou a indústria cinematográfica ainda não tenha pegado neste personagem tão ambíguo como surpreendente. Alguns adjectivos que poderíamos ligar a este homem seriam: amante, destemido, irreverente, inteligente, surpreendente, encantador, versátil, desalinhado, criminoso, expatriado, ímpio, desejado, odiado e amado.
Alcíbiades nasceu em Atenas cerca de 450 a.C., herdou a tradição na política ateniense da família. Após a morte de Clínias, seu pai, na batalha de Corona (447), Alcíbiades foi educado sob a tutela de Péricles, o homem que mandou erguer o Parténon. Todas as fontes afirmam que o jovem Alcibíades foi amigo e discípulo de Sócrates. Combateu ao lado do filósofo e Plutarco relata que Alcíbiades lhe terá ficado a dever a vida na batalha de Potidea. Se foram ou não amantes pouco interessa, mas com certeza tinham uma relação muito próxima.
Mas que teria este jovem de dezoito anos de especial para que uma das maiores personalidades da humanidade arrisca-se a sua vida pela dele?
Sócrates com certeza não se deixaria “apanhar” apenas pela sua beleza física, a qual, segundo Plutarco (Alc. I), “não é necessário referir nada excepto que era igualmente fascinante quando foi um rapaz, um jovem e um homem.”. Segundo consta, o jovem prodígio ficou fascinado pelo desinteresse de Sócrates e aprendeu a desprezar-se a si próprio e a admirar a natureza singular de Sócrates. Os antigos afirmam que ele levava uma vida paralela, onde, por um lado convivia e apreciava a virtude nua e crua de Sócrates e, por outro lado, deixava-se afundar em deboches excessivos. Provavelmente, foi esta precoce dualidade que lhe permitiu mais tarde adaptar-se a mundos tão diferentes como a austeridade espartana e a opulência persa.
Ainda jovem mergulhou na vida política e escolheu como adversário principal Nícias e a paz que este general ateniense tinha conseguido com os espartanos, a chamada paz de Nícias. Alcíbiades não descansou enquanto não demoveu os atenienses para adoptarem uma posição mais hostil para com os Lacedemónios.
Usando a sua perícia oratória e algumas jogadas menos claras, persuadiu os atenienses a tomarem a sua posição. Sobre a sua capacidade oratória registo esta frase de Habinek “a audiência respondia à afeição de Alcíbiades com a sua própria afeição, assim o orador era a instituição da pólis falando e maravilhando-se consigo própria.”.
Alcíbiades persuadiu a ecclesia, ou seja, a democracia dos atenienses, a levar a cabo a conquista de Siracusa, que foi um dos maiores desastres da história de Atenas, mas a isto regressarei na próxima parte da vida de Alcíbiades.

Mais informação:
Alcíbiades num bom artigo da wikipedia
A vida de Alcíbiades segundo Plutarco (Inglês)
Alcíbiades no dicionário do Smith (óptimo para pesquisar fontes primárias)

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