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momentos na cultura antiga

sábado, novembro 25, 2006

Alcibíades – A campanha de Siracusa

Tinha deixado o meu relato da vida de Alcibíades no ponto em que ele tinha conseguido convencer a assembleia da democracia ateniense a avançar com a expedição de Siracusa. É importante referir que, antes deste momento, Alcíbiades já tinha, por um lado, ganho o respeito e a admiração de muitos atenienses, e por outro já era alvo de inveja e tinha ganho muitos inimigos. Nos jogos olímpicos de 424 a.C. participou, como patrono, com sete carros de cavalos numa corrida onde ganhou o primeiro, o segundo e o quarto lugar. Segundo Tucídides, foi também patrocinador de coros em representações dramáticas, o que era obviamente encarado com muito agrado pela população de Atenas. Em 419 conseguiu ser declarado strategós, ou seja, general eleito pelos cidadãos. Nessa posição, Alcíbiades levou a cabo uma política ofensiva contra Esparta e conseguiu juntar algumas cidades como aliadas, preparando-se para reacender a guerra do Peloponeso e arrasar a paz de Nícias.
Em 415 a.C. chegaram a Atenas embaixadores de Segesta, uma cidade siciliana, pedindo a ajuda de Atenas para a sua guerra contra Selino, cidade vizinha de Segesta. Com a chegada dos embaixadores, Alcibíades terá visto uma oportunidade dourada para prosseguir a sua política de expansão de Atenas, política essa que era contrária aos conselhos do seu falecido tio, Péricles. Tucídides registou um dos debates em que Alcibíades e Nícias se confrontaram. Nícias defendia que a campanha seria excessivamente custosa para Atenas e por isso não deveria ser levada a cabo, ao mesmo tempo atacava o carácter, a juventude e os motivos que levavam Alcibíades a apoiar a expedição. Do outro lado, segundo o relato de Tucídides ouvimos o seguinte de Alcibíades:
“…Não deixem que a política de passividade que Nícias defende, ou o seu esquema de colocar os mais velhos contra os mais jovens, vos leve a modificar o vosso propósito. Mas ajamos à maneira dos nossos antepassados, que, mais jovens e mais velhos em conjunto pelas suas decisões nos deixaram a herança que dispomos. Será que vocês estão empenhados em prosseguir desse modo? Lembrem-se que nem a juventude nem a experiência podem fazer alguma coisa, uma sem a outra. (…) Resumindo, a minha convicção é que uma cidade naturalmente activa não pode escolher um caminho mais rápido para a ruína se repentinamente adoptar uma política de inactividade, e com certeza que de modo mais seguro vivem as cidades que menos se afastam dos costumes e das leis do seu tempo…”
O argumento de Alcibíades entende-se melhor se for inserido no contexto da guerra do Peloponeso, onde Atenas e Esparta disputavam a hegemonia da Grécia, naquele momento preciso Atenas tinha alguma vantagem militar sobre Esparta. Contudo, Nícias, apercebendo-se que Alcibíades controlava a assembleia, resolveu argumentar da forma contrária e afirmou que seria necessária uma campanha megalómana e desmesurada para obter sucesso na Sicília. Ora, esta argumentação saiu-lhe pela culatra, pois os atenienses entusiasmaram-se com a grandiosidade da expedição e votaram a favor da invasão da Sicília. Contra a sua vontade Nícias foi designado strategós em conjunto com Alcibíades e Lâmaco.
No entanto, um acontecimento inesperado viria a alterar o rumo dos acontecimentos de forma brutal. Enquanto se realizavam os preparativos para a expedição, as faces das Hermae, estátuas sagradas de Hermes espalhadas pela cidade, apareceram mutiladas de um dia para o outro. A associação deste crime sacrílego com a ruína da expedição foi imediata. Na mesma altura, surgiram rumores de actos de profanação sobre os mistérios de Elêusis levados a cabo por grupos de jovens ébrios. Apesar de os mistérios de Elêusis não estarem directamente relacionados com as estátuas de Hermes, os inimigos de Alcibíades levantaram o rumor de que o jovem ateniense estaria envolvido nestes actos de profanação. Não posso resistir a partilhar convosco uma reflexão sobre o modo como a política é feita pelo homem há milhares de anos. Comparemos este caso da acusação a Alcibíades, obviamente, uma manobra política levada a cabo para o desacreditar, aproveitando a sua fama de jovem impetuoso, com o recente caso de Mónica Lewinsky nos EUA, onde se aproveitou uma fraqueza pessoal para se deitar a baixo um presidente.
Regressando à Atenas do século V, Alcibíades tentou limpar o nome e resolver a situação com um julgamento, mas os seus inimigos conseguiram protelar o julgamento para que Alcibíades partisse na expedição e fosse mais tarde julgado à revelia, o que acabou por acontecer. Tucídides (VI, 30-32) deixou-nos um relato impressionante da partida da “campanha que era de longe a mais custosa e esplêndida força Grega que alguma vez tinha sido enviada por uma única cidade”. Quando a frota ateniense se encontrava na Catânia, preparando-se para a invasão da Sicília, um barco enviado de Atenas mandava Alcibíades regressar à cidade para ser julgado por sacrilégio. Os inimigos de Alcibíades não tinham ficado em repouso, e, aproveitando a sua ausência, manobraram os poucos atenienses que tinham permanecido na cidade para que a hostilidade para com o jovem general tomasse conta da cidade.
Frustrado por não poder participar na campanha que tinha apadrinhado, Alcibíades acompanhou no seu próprio navio o barco ateniense até um certo ponto, onde o jovem general desapareceu. Desta forma, Alcibíades tornou-se um foragido para os atenienses que o condenaram à morte num julgamento feito à sua revelia.
O que restava a Alcibíades? Poderia ter-se remetido ao exílio, permanecendo numa colónia que o recebesse e o deixasse viver. No entanto, retomando a comparação de Aristófanes (Rãs, v. 1427), os leões não são escorraçados do seu território com facilidade. Alcibíades rumou para o Peloponeso e foi bem recebido pelos Espartanos, apesar de antes terem sido inimigos mortais. Mais significativo ainda, foi a sua influência para que os espartanos enviassem uma força de apoio aos sicilianos, frustrando a invasão dos atenienses. A expedição ateniense revelou-se um fracasso, tanto por ter subestimado os inimigos como por ter perdido para o outro lado o homem que tanto se tinha esforçado para realizar a campanha militar. A partir do momento em que Atenas falhou na Sicília e perdeu o domínio dos mares, foi apenas uma questão de tempo para que Esparta ganhasse a guerra do Peloponeso.

Espero que daqui a alguns dias possa retomar o relato da vida de Alcibíades que ainda tem muito para contar. Ainda falta contar como se tornou amante da rainha de Esparta, como tomou o lado dos Persas para se salvar da vingança do rei espartano e como finalmente regressou a Atenas aclamado como um herói.

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4 Comments:

At 8:10 da tarde, novembro 25, 2006, Blogger Miguel G Reis disse...

Ola Manuel

Gostei muito, bastante instructivo, como sempre.

A comparação com o caso Lewinky é bastante pertinente. O relato de Tucídides também me faz lembrar métodos milenares e ainda actuais de fazer política.

Abraço
Miguel

 
At 3:47 da tarde, novembro 26, 2006, Blogger Manuel disse...

É verdade...

Na aparência o mundo mudou muito nos últimos milénios, mas o ser humano é exactamente o mesmo desde a guerra de Tróia, passando por Cristo até à actual era Bush.

 
At 9:08 da tarde, novembro 26, 2006, Blogger Miguel G Reis disse...

Abaixo assinado!

Abraço

 
At 7:59 da tarde, março 25, 2011, Anonymous Anónimo disse...

Gostei, cara.

Anselmo

 

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