breve tempus

momentos na cultura antiga

segunda-feira, maio 28, 2007

Uma pacifista disserta sobre a Ilíada.

Simone Weil, A fonte Grega, Lisboa, Cotovia, 2007. pág. 10:
(acabadinho de comprar na feira do livro)

"Mais pungente ainda, de tal modo o contraste é doloroso, é a súbita evocação, logo apagada, de um outro mundo, o mundo remoto, precário e comovente da paz, da família, esse mundo onde cada homem é para aqueles que o rodeiam aquilo que conta mais.

Gritava às servas de belos cabelos casa fora
Que junto ao lume dispusessem um tripé, para que houvesse
Para Heitor um banho quente ao regressa do combate.
Ingénua! Não sabia que longe dos banhos quentes,
O braço de Aquiles o vergara, por causa de Atena de olhos verdes.

Estava de facto longe dos banhos quentes, o infeliz. Não era o único. Quase toda a Ilíada se passa longe dos banhos quentes. Quase toda a vida humana sempre se passou longe dos banhos quentes."

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quarta-feira, maio 23, 2007

Etimologias para reflectir I - O cosmos


A etimologia que vos apresento é fruto de uma reflexão sobre o universo em que vivemos aliada a uma constatação factual sobre uma realidade linguística do grego antigo.
Actualmente a maioria de nós liga a palavra «cosmos» ao espaço físico que contém o universo. Recordo-me especificamente do Cosmos de Carl Sagan, livro de que guardo boas recordações. (Tenho que relê-lo um dia destes!)
Prosseguindo... Para os gregos antigos o kósmos também significava a ordem do universo, o mundo, daí a «cosmogonia» – a ciência que estuda a génese do universo. Contudo o movimento de ordenar o universo é há muito considerado essencial à própria ordem do universo. Já agora ofereço-vos um pouco de etimologia latina neste caldeirão de ideias: pensemos na semelhança entre «ordenar» e «ornar». Ambos os verbos provêm da mesma riquíssima raiz *ar-, de onde vêm palavras como «ombro», «arma», «artigo», «articulação», «arte», «artífice», «ordem», «primórdio» e até mesmo «ordinário».
Após esta reflexão etimológica latina voltemos aos gregos. Também eles fundiam no kósmos a ideia de «ordenar» com o «ornar». Daí a nossa «cosmética». O mesmo movimento de «ornar» ligado umbilicalmente ao de «ordenar».
Mas será o cosmos constituído apenas de ordem? Ao que parece, os cientistas que estudam a cosmogonia tiveram que colocar um elemento caótico para que a matemática do universo "batesse certo com a tabuada". Esse elemento é a chamada matéria negra, que não se vê, mas que constitui 90% do universo!!!
Relativamente à cosmética, tenho as minhas reservas pessoais quanto à importância que se dá actualmente à ornamentação, sobretudo quando se trata de uma operação superficial e que não toca o âmago do nosso ser. Não estou a falar apenas de perfumes e águas-de-colónia que com certeza tornam o nosso dia-a-dia mais agradável. Refiro-me ao problema profundo que nos toca a todos: o desvio total do nosso interesse da ética para um caminho onde a superficialidade reina sem concorrência. Todos nós já ouvimos dizer que "a imagem é tudo". O que é natural numa sociedade cuja estrutura basilar é a lógica de mercado, a lógica de comprar e vender. O que se vende é o que se vê e o que está por fora. Quantos de nós já compraram belíssimas maçãs que sabem a nada?
E já agora, será que a ética também se compra e vende? Talvez, mas será essa ética ainda ética ou apenas estética?
Bem o que é facto é que a nação mais «rica» e «desenvolvida» do nosso pequeno planeta gasta mais em produtos cosméticos do que custaria a educação básica para o mundo inteiro. Ora reparem nos seguintes números da O.N.U.:

Global Priorities:

Basic education for everyone in the world 6 $US billions
Cosmetics in the United States 8 $US billions
Water and sanitation for everyone in the world 9 $US billions
Ice cream in Europe 11 $US billions
Basic health and nutrition for everyone in the world 13 $US billions
Pet foods in Europe and the United States 17 $US billions
Alcoholic drinks in Europe 105 $US billions
Narcotics drugs in the world 400 $US billions
Military spending in the world 780 $US billions

(Fonte: Human Development Report 1998, Chapter 1, p.37, United Nations Development Programme)

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segunda-feira, maio 14, 2007

de Xenófanes a Simone Weil - O Outro e Eu

"Human beings are so made that the ones who do the crushing feel nothing; it is the person crushed who feels what is happening. Unless one has placed oneself on the side of the oppressed, to feel with them, one cannot understand."

Simone Weil

"Diz-se que uma vez, passando por um cão a quem batiam,
o lamentou, proferindo tais palavras:
«Pára, não batas mais, porque é a alma de um amigo
que reconheci, ao ouvir a sua voz.»"

(Xenófanes frg. 7 Diels)
Trad. por M. Helena da Rocha Pereira, Hélade.

A metempsicose, ou seja, a teoria da transmigração das almas, é uma crença com raízes ancestrais. A sua origem remonta aos países onde o Sol nasce com cor de caril e o mar espelha um céu azul índigo. Para além de todas as intersecções religiosas que se possam fazer entre os gregos antigos e o hinduísmo, há um outro aspecto que me surpreende ainda mais. A metempsicose parece-me acima de tudo um meio muito hábil de mostrar ao homem que o respeito pelos outros seres vivos é essencial para mantermos uma relação saudável com o mundo que nos rodeia. Ao mesmo tempo, esse respeito pelos outros seres vivos obriga a um maior respeito pelos outros seres humanos. O respeito a que me refiro não é um respeito preso a restrições, regras ou regulamentos, o respeito a que me refiro é muito mais vasto, pois exige acima de tudo a capacidade de nos colocar-mos do outro lado, de sermos, pelo mais breve momento que seja, o outro.
Esta ideia que esteve na boca de Pitágoras e de Buda surpreende-me cada vez mais. A capacidade de nos vermos no outro é uma capacidade restrita ao ser humano, e que nos eleva a um plano sem dúvida luminoso. Compreender o outro, a sua dor, sofrimento, alegria, tristeza, felicidade é o que nos torna humanos.

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domingo, maio 06, 2007

Horácio e Régio

Recta vida, Licínio, crê, não há-de
ser sempre navegar no alto mar,
nem, temendo de mais a tempestade,
só perto dos rochedos navegar…

Quem ‘scolhe a regra de ouro mediana
é que evita afinal, com segurança,
tanto o horror da sórdida choupana
como o palácio cuja luz nos cansa.

O pinheiro mais alto é que mais vezes
p’la fúria do vento é açoutado;
tombam as torres em razão do peso;
dos montes só o cimo é fulminado.

Sabe que o peito forte, na fortuna,
é que teme a desgraça; mas, na treva,
não deixa de ter esp’rança… Tudo muda:
o Inverno Jove o traz; depois o leva…

O bem pode nascer do mal de agora.
às vezes, quando menos se imagina,
Apolo com a lira a Musa acorda;
e nem sempre seu arco ele utiliza.

É ante o infortúnio que valente
e mais firme te deves ir mostrando.
Segura bem as velas, se és prudente,
quando o vento demais as for inchando…

Horácio, Odes II.10
trad. de David Mourão-Ferreira



Plenitude incomportável abraça-me
com esse calor inconfundível da memória

que recordar com mais ardor?

o sentir da luz pela primeira vez
ou
aquele último olhar para as cores da vida

ou ainda
viver na mansidão da serena tarde de Verão
ou
gemer com o alto pinheiro a chuva e a ira da tempestade
esse humano sentir…

morar na árida placidez
ou
segurar a vida pelos dentes?

João Régio
1936

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sábado, maio 05, 2007

Surf VII - Chironweb







El planeta de blogs de Χείρων Chiron es una primera aproximación a la blogosfera clásica. Aquí puedes leer los artículos de los blogs de temática clásica que tenemos sindicados, y puedes añadir tu propio blog.


Vale a pena uma visita a este interessante blogue elaborado por professores espanhóis de Clássicas. Uma excelente iniciativa!

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sexta-feira, maio 04, 2007

De lingua latina exstincta

"Na escola onde estou a estagiar, em Cascais, parece que o 12º ano ainda tem uma turma de Línguas e Literaturas, mas nos outros anos já não houve gente suficiente para abrir essa turma. Gostava de saber de quem foi a brilhante ideia de fazer um agrupamento para uma área em declínio relativamente ao número de alunos que a escolhem. Há decisões muito estúpidas, porque é óbvio que aconteceria isto: não há gente suficiente para abrir uma turma. Aqui há uns meses fui à escola secundária onde andei e reparei que no 10º ano havia 3 turmas de Ciências Sociais e Humanas, mas nenhuma de Línguas. É de referir que foi uma escola em que, há nove anos, se conseguiu uma turma inteira de humanidades com a opção de latim; e de todos os que tiveram latim, só eu e outra é fomos para letras, o que mostra que há quem vá para direito, psicologia, filosofia, sociologia, etc. e tenha interesse na disciplina. Para além disso, também as outras línguas, francês e alemão, e a literatura portuguesa são quase extintas. Sim, porque a disciplina de português actual é coisa de crianças e deveria haver um equivalente do Português A, pelo menos para Ciências Sociais e Humanas. A única conclusão a que posso chegar é que não quiseram tornar o ensino das línguas mais especializado, mas sim extingui-lo. É das coisas mais estúpidas no ensino: existirem opções abertas a nível nacional e depois haver um número mínimo de alunos que torna quase impossível que essas opções sejam levadas à prática. Se os senhores do ministério não fossem tão forretas, podiam pagar a mais alguns professores, para que os alunos pudessem realmente ter um ensino que vai ao encontro das suas preferências, em vez de serem obrigados a seguir as escolhas dos outros. Quem quer ir para ciências, é uma maravilha, há em todo o lado. Agora, línguas ou artes, já é preciso ir à procura de escolas a não sei quantos quilómetros de casa... "

autoria - S.V.
Recolhido nos comentários a este texto.
Os sublinhados são meus.

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terça-feira, maio 01, 2007

Estudos Clássicos para maiores de 23

Para todos os maiores de 23 anos que queiram conhecer o sabor de ler Safo e Homero em Grego, ou de ler Vergílio em Latim e conhecer poesia tão sublime como Camões, ou ler Platão e tirar as suas próprias conclusões e não as conclusões de outros, e mais uma série inumerável de motivos...

Licenciatura em Estudos Clássicos para maiores de 23 anos.

Já agora, uma informação para os alunos da Universidade Independente:

Sabiam que podem pedir transferência para qualquer universidade estatal?
A Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa bem que precisa de alunos...

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Roma - novo livro de Steven Saylor



Steven Saylor, escritor de romances histórico-policiais com pano de fundo na Roma antiga, já lançou o seu último livro. Para os fãs da série Roma sub-Rosa fica uma pequena desilusão. Parece que o autor se afastou definitivamente de Gordiano e da sua família. Contudo este novo livro, que nas palavras do autor é um romance épico, tem um tema muito interessante - a génese de Roma, desde a fundação até à morte César. Não faço ideia de como Saylor consegue abarcar um tão grande período de tempo em apenas 555 páginas.


A versão portuguesa não deve tardar muito a aparecer. Mas como também preciso de manter o inglês em forma, encomendei a versão original. Depois conto-vos como é...

quinta-feira, abril 12, 2007

Dostoiévski e Lucrécio

Neste sublime excerto de Crime e Castigo, Raskólnikov foge do seu melhor amigo, abandona as pessoas que mais ama na vida, a sua irmã e mãe. Fá-lo porque a sua consciência sente o peso insuportável do crime que cometeu.

"Raskólnikov esperava-o ao fundo do corredor.
- Sabia que vinhas atrás de mim – disse. – Volta para lá e fica com elas… E também amanhã e… sempre. Eu… talvez apareça… se for possível. Adeus!
E, sem estender-lhe a mão, foi-se embora.
- Mas para onde vais tu? O que tens? O que se passa? Será possível uma coisa dessas?... – murmurou Razumíkhin, completamente perdido.
Raskólnikov voltou a parar.
- De uma vez por todas: nunca me perguntes nada. Não tenho nada a responder-te… Não venhas ver-me. Se puder, venho eu cá… Deixa-me mas não as deixes a elas. Percebeste?
Fazia escuro no corredor, estavam ao pé do candeeiro. Durante um bom minuto olharam um para o outro em silêncio. Razumíkhin ficou com esse minuto gravado na memória para toda a vida. O olhar fixo e ardente de Raskólnikov parecia mais forte a cada instante que passava, penetrava-lhe na alma, na consciência. De súbito, Razumíkhin estremeceu. Algo estranho relampejou entre eles; qualquer coisa terrível, monstruosa e, num relâmpago, percebida pelos dois… Razumíkhin ficou lívido como um morto.
- Compreendes agora? – disse Raskólnikov com o rosto doentiamente desfigurado. – Volta, vai ter com elas – acrescentou e, dando meia volta, foi rapidamente para fora…"

Dostoiévski, Crime e Castigo, Trad. Nina e Filipe Guerra, Presença 2001.

Mas na vida há o medo do castigo por feitos criminosos,
medo tão horrível quanto o crime e a expiação para o crime:
a prisão, o horrível lançamento da pedra, correntes, executores, cela dos condenados,
buraco, ferro em brasa, fogo; e ainda que estes estejam ausentes,
ainda assim a consciência culpada, aterrorizada perante tudo o que possa acontecer,
aplica o aguilhão e flagela-se a ela própria com chicotes, e enquanto não vir
o fim para as suas misérias ou o limite para o seu castigo receia que estas aflições
possam ser mais graves depois da morte. Assim a vida dos loucos torna-se num inferno.

Lucrécio, Sobre a natureza das coisas, III, 113-123.

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sexta-feira, abril 06, 2007

Homero, Ilíada 1-7



Deixo-vos uma oferta pascal. Cliquem no texto e liguem as colunas...

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terça-feira, março 27, 2007

Miller, Termópilas, Irão e EUA





Frank Miller sempre foi um dos meus desenhadores preferidos. Quando tinha onze ou doze anos lia a saga dos X-men com o mesmo deleite que hoje leio o Crime e Castigo de Dostoyevsky. Depois de ler o pequeno livro de B.D., na altura umas edições pequenas da Abril (editora brasileira), voltava a passar os olhos nos soberbos desenhos de Miller. O seu estilo realista encantava a minha estética de puto…
Há algum tempo, descobri que Miller tinha feito uma graphic novel sobre um tema muito interessante: a batalha das Termópilas, célebre acontecimento histórico em que cerca de trezentos espartanos se sacrificaram, atrasando e desmoralizando o imenso exército de Xerxes.
Até aqui tudo bem, no entanto o livro foi usado para uma adaptação para um filme, que segue não letra a letra, mas quase quadradinho a quadradinho a concepção inicial de Miller. O problema é que a figura, no mínimo original, de um rei Xerxes seminu, totalmente depilado e tão cheio de piercings que quase parece saído de uma fotografia numa montra de uma loja de tatuagens, não agradou particularmente a certas pessoas no Irão. A quem exactamente, ainda não descobri, mas já ouvi na rádio e encontrei estes artigos sobre a questão.

http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL11853-5603-672,00.html

“Might there be a small difference between going forth to protect your land from imminent attack, and actually going far away from home to attack a country that never once threatened your way of life?”

A questão não se esgota por aqui, pois, há uma acusação de propaganda política que não me parece completamente despojada de sentido. No entanto, sabemos bem que os americanos são especialistas em propaganda política nos seus filmes e há filmes bem piores onde se explora a ideia do imbecil asiático terrorista fanático machista brutal e sobretudo anti-americano. Entendo que no Irão haja um ressentimento profundo contra as ideias maniqueístas amplamente difundidas pela administração norte americana e seus lacaios. Mas neste caso objectivo, parece-me um erro tomar uma posição político-moral perante um filme baseado numa obra de B.D. que não me parece ter grandes ambições histórico-pedagógicas. Não me parece que Miller tenha desenhado e escrito “300” com o intuito de insultar a grande nação Iraniana, cuja história alcança muito para além dos pequenos dois séculos de história dos E.U.A., mas quem sabe… Só para terminar, o livro foi publicado em 1998.

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domingo, março 25, 2007

Verdade ou falsidade? - Abertura da Teogonia

Comecemos por cantar as Musas Helicónias,
senhoras da grande e divina montanha do Hélicon,
as que dançam com os seus pés delicados em volta da fonte
de águas violáceas e do altar do Crónida todo-poderoso,
(…)
Foram elas que uma vez ensinaram um belo canto a Hesíodo,
quando ele apascentava os seus cordeiros nas faldas do Hélicon divino.
Eis o que me disseram, dirigindo-se a mim, as deusas,
Musas do Olimpo, filhas de Zeus detentor da égide:
«Pastores que habitais os campos, triste vergonha, que só tendes estômago!
Nós sabemos dizer muitas falsidades, que se parecem com a verdade; mas
também, quando queremos, proclamamos verdades.»
Assim falaram as filhas verídicas do grande Zeus;
deram-me como bordão um soberbo ramo de louro em flor,
cortado por elas; inspiraram-me um canto divino,
para eu glorificar o presente e o passado,
e mandaram-me cantar a raça dos bem-aventurados, que duram sempre;
e celebrá-las sempre a elas também, no princípio como no fim.

Teogonia
, 1-34 .- trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Hélade.

A abertura da Teogonia não nos deixa dúvidas quanto à fonte inspiradora do poeta. As Musas, essas deusas que “caminha pela noite fora, a cantar formosas melodias” surgem aqui com um discurso belo, mas malicioso. Parece-me espantoso o modo como a poesia se relaciona com a alétheia, a verdade. A Teogonia é um poema que canta, como o nome indica, a génese dos deuses (teo-gonia), a sua origem mitológica.
É notável como no primeiro discurso das Musas, estas logo apontam o tom ambíguo do seu próprio discurso, pois, se as Musas sabem dizer muitas falsidades, também, quando querem, proclamam verdades. Verdade ou falsidade, Hesíodo lança de forma muito hábil uma dúvida germinal no poema que canta a origem dos deuses. Fica desde o início plantada a semente da incerteza, na primeira obra literária “ocidental” cujo tema estrutural é o divino.

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quarta-feira, março 21, 2007

Epicurismo refinado

O deus Pã não morreu,
cada campo que mostra
aos sorrisos de Apolo
Os peitos nus de Ceres –
Cedo ou tarde vereis
Por lá aparecer
O deus Pã, o imortal.

Não matou outros deuses
O triste deus cristão.
Cristo é um deus a mais
Talvez um que faltava.

Pã continua a dar
Os sons da sua flauta
Aos ouvidos de Ceres
Recumbente nos campos.

Os deuses são os mesmos,
Sempre claros e calmos,
Cheios de eternidade
E desprezo por nós,
Trazendo o dia e a noite
E as colheitas douradas
Sem ser para nos dar
O dia e a noite e o trigo
Mas por outro e divino
Propósito casual.

Ricardo Reis

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Até breve...

Por motivos de ordem secundária ao funcionamento do blog, mas de ordem primordial para o funcionamento da minha vida o BreveTempus está neste momento intermitente e quase adormecido. Quando for possível retomar o funcionamento normal avisarei quem puder.
Quem quiser pode ir espreitando aqui...

Até breve.

sábado, fevereiro 03, 2007

A não perder:

Vasos Gregos em Portugal - Aquém das Colunas de Hércules

Datas:26 de Janeiro de 2007 a 15 de Julho de 2007

Local: Museu Nacional de Arqueologia (Jerónimos)

Organização institucional:Museu Nacional de Arqueologia (MNA)

Comissariado científico:Prof.ªs Doutoras Maria Helena da Rocha Pereira e Ana Margarida Arruda.

Comissário executivo: Ana Isabel Santos


"A cerâmica produzida na Antiga Grécia constituiu sempre, ao longo de séculos, um motivo de atracção e coleccionismo. Ninguém é insensível à beleza plástica destes vasos, que constituem verdadeiras obras de arte, nas quais os motivos pintados, monocromáticos ou policromos, apresentam grande diversidade, desde os geométricos puros até às figurações de elementos da vida quotidiana e de cenas de natureza mitológica, constituindo neste caso verdadeiros ex-libris divulgadores do pensamento filosófico-religioso da Antiguidade.

Entre nós, existe uma certa sensação de quase vazio relativamente a este universo de peças, o qual resulta em grande medida do facto de nunca o coleccionismo de vasos gregos ter aqui sido prosseguido de forma sistemática e não ter também havido em séculos passados "missões arqueológicas" portuguesas no Mediterrâneo centro-oriental.

A presente exposição sugere um horizonte algo diverso do da escassez acima evocada. Em museus e instituições oficiais portuguesas e em colecções privadas existem afinal peças de grande valia histórica e patrimonial, porém muito dispersas e em grande medida desconhecidas, senão inteiramente inéditas. (...)"


Excerto retirado do site oficial: http://www.mnarqueologia-ipmuseus.pt/?a=2&x=3

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quarta-feira, janeiro 31, 2007

Carmen 51 - Catulo


Aquele parece-me semelhante a um Deus,
aquele, se tal é permitido, parece-me superar os Deuses,
quando está sentado à tua frente,
observando e ouvindo, sem cessar,
o teu doce riso, que a mim, miserável,
arrebata todos os sentidos: porque logo que te vi,
Lésbia, não me resta voz na boca
mas a língua retrai-se, uma leve chama
alastra debaixo do corpo, com seu próprio som
retinem os ouvidos e por uma dupla noite
são cobertos os olhos.

O ócio, Catulo, é te prejudicial:
com o ócio regozijas e exultas demasiado,
o ócio outrora arruinou reis
e prósperas cidades.


Carmen 51 - Catulo (séc. I a.C.)
(trad. 5 de Março de 2005)
A borboleta negra possui o belo nome de Pholisora catullus.

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